sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pelas noites d’Évora


Pelas noites d’Évora

os

Vagabundos do Ritmo

 


 

            Foi há cinquenta anos… Mas o diálogo aconteceu outro dia…

            - «Não, não credito que existisse na sua cidade um “conjunto musical” com atrevimento suficiente para tocar o rock and rol! Esvis Presley, Little Richard, The Shadows, Gene Vincent? Não, meu amigo, isso era impossível! Você sempre conta cada história…».

            - «[…].».
 
Já não recordo qual a resposta que dei ao incrédulo. Mas fiquei agastado… Fiquei mesmo muito agastado! Por isso escrevi este texto que é, além da memória juvenil de uma geração de eborenses, uma rendida homenagem ao «conjunto musical», como eles próprios se intitulavam, «Vagabundos do Ritmo»!         

 Há sessenta ou cinquenta anos, a música ligeira que se ouvia nesta cidade era transmitida pela «Emissora Nacional» (EN) ou «Rádio Clube Português» (RCP). Por um lado, ouvia-se quase exclusivamente as canções dos «Serões para Trabalhadores», na EN em directo (organizados pela FNAT*) ou, em selecção pouco mais alargada, a música ligeira selecionada no RCP. Assim afirmava o meu interlocutor… Não insisti na demonstração da informação errada que exibia. – Está visto, não conheceu os «Vagabundos do Ritmo»! …

             Este «conjunto musical» inspirou-se naquilo que se conseguia saber, na cinzenta cidade de Évora, sobre os rockers da época. Não me recordo se chegaram a “tocar” A Hard Day’s Night» e Help! do grupo de Liverpool, mas tenho a certeza que interpretaram composições dos Beach Boys, talvez sem saberem que  estes começavam a afundar-se face à força dos Beatles e dos Roling Stones.

            Lembro-me muito bem deles, há 50 atrás, nas tardes e noites de sábado (matinée e soirée). Com eles, os jovens da granítica cidade conheceram o ritmo e o som alegre da música do seu tempo, estafado de hinos “nacionalistas” e fardas, fatos e gravatas… Os «Vagabundos do Ritmo», cheios de espírito de iniciativa e engenhosos recursos, devem ter salvo do desespero mais de uma vez os jovens contaminados pelo tédio branco e desbotado da urbe, de gentes de cerviz dobrada e marrafa ao lado, aborregada no redil do “parece bem/parece mal”. Salvaram do tédio os que não tinham recursos para adquirir um gira-discos nem um 45 rotações…

            Salvaram do tédio, da modorra provinciana, dizia, entre dois concertos… Perdão, quero dizer entre dois bailes (nesse tempo não havia concertos com “bandas” do género), se bem me lembro a tocar Just Walking in The Rain (Johnnie Ray), Only You (The Platters), Blue Suede Shoes (Elvis Presley), Wen a Man Lovers a Woman (Percy Stedge), Stand By Me (Bem E. King), e num registo mais latino e romântico, Por un Flirt (M. Delpech/Vincent), Capri C’est Fini, Intarella di Luna (Domenico Modugno) às vezes a fechar a soirée, Il Silenzo, tocado com a mestria possível no luzidio trompete de Luís Monginho…

Devo ser mais exacto… Para além dos pares de dançarinos, dos praticantes do “namoro-dançante” (tangos, valsas, rumbas, swing’s, etc.), havia então um grupo de jovens, amigos ou simples admiradores da música interpretada pelos «Vagabundos do Ritmo». que seguia o «conjunto musical» até aos locais onde havia baile sábado à noite (Juventude, Sociedade Joaquim António de Aguiar, Harmonia, etc.), com o único objectivo de ouvirem as composições executadas pelo «conjunto musical» e, assim, sem talvez se aperceberem, esses jovens “montavam” um verdadeiro concerto de música dos anos 60, à revelia das direcções das “sociedades recreativas” (em geral quarentões conservadores e boçais)!

Grupo de jovens que ignorava a presença positiva da sala de baile. Grupo que ignorava os pares grudados, de olhos semi-cerrados, aborregados a pobre êxtase…

 Grupo de jovens que ali se conservavam apenas para ouvir, a um canto da sala, a música produzida por Luís Manuel Monginho, António Carlos Monginho, António Rosa Correia, Adílio Tirapicos e Francisco Bolas… «Os Vagabundos do Ritmo» !

 Tempos “heroicos”, em que o «conjunto musical» levava por um baile 1.400$00 escudos, por dois bailes (sexta e sábado) 2.500$00, correndo as despesas de deslocação por conta destes rockers de fim-de-semana. Os «Vagabundos do Ritmo», com excepção de Adílio Tirapicos (“mestre” barbeiro) foram todos alunos da Escola Industrial e Comercial «Gabriel Pereira», portanto, músicos amadores que, como muitos outros jovens empregados, só com a persistência típica do verdadeiro self made man, utilizando as horas de lazer após o trabalho, para ensaiarem e, assim, adquirir a mestria que a todos nós extasiava… Além da música, por isto também muito nos identificavam os «Vagabundos do Ritmo»!

De alguma forma a eles se fica a dever, numa cidade traumatizada pelo conservadorismo ambiente e por uma ruralidade latifundiária opressora, a difícil renovação das mentalidades jovens e sua adaptação ao mundo urbano, alegre e cheio de esperança, ao som do rock and rol!

Ah!, meus amigos destroçados pela vida ou para sempre adormecidos no grande silêncio, quem nos dera numa dessas noites de sábado, a ouvir as vossas interpretações do Paul Anka ou dos Chats Sauvages… Escutar, sobre o ardor exaltado da pista de dança (que não nos interessava muito) o vosso ingénuo e improvisado “concerto”… Et MaintenantNel Blu Di Pinto Di Blu!...

Quem nos dera uma gloriosa soirée com os «Vagabundos do Ritmo», para uma derradeira vez vibrarmos com o Let’s twist again!

 



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*FNAT: organismo corporativo do “Estado Novo” decalcado da panóplia organizativa do fascismo italiano, na versão lusitana intitulado «Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho».

4 comentários:

Dário disse...

Belos tempos e grandes noites

Bernardino Barnabé disse...

Obrigado Dr. Palminha, pelo excelente texto descrito sobre o Conjunto Musical "Vagabundos do Ritmo". Sempre que possível, frequentei os bailes que eles abrilhantavam, mais pelo prazer de ouvir as suas músicas. A nossa geração, deveria prestar-lhe uma justa homenagem, sabendo que contribuirão imenso, para que os jovens Eborenses, saíssem do "marasmo" em que conviviam, naquela época.
Bernardino Barnabé

Bernardino Barnabé disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Manuel disse...

Mas há mais um conjunto desse tempo o APOLO 4, que eram na altura do ano 68/69 todos alunos da ESCOLA.
Prof. José Seabra mais conhecido pelo BOGA