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sábado, 21 de março de 2015

SUADADES DO ALENTEJO

 
NÃO TE ADMIRES ALENTEJO!
 
Não te admires Alentejo!
Da saudade que me ocorre,

Quando longe o tempo morre,
E há meses que não te vejo!
 
A sonhar-te em ti caminho,
Pelos campos matizados,
Falo-te cantando baixinho,
Cheia de espinhos cravados!
 
Não te admires nem um dia!
De tantos desejos que guardo,
Nesta prisão tão tardia.
 
Conto os dias e os meses,
Sinto a alma despedaçada,
E só para te ver às vezes!
 

20-03-2015 Maria Antonieta Matos
Desenho do meu amigo Costa Araújo

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

(meditação para a Páscoa)


A nobreza dos espinhos


            Do conjunto dos adágios populares que ocasionalmente nos dão a medida da subtileza da antiga sabedoria, por vezes obras-primas da evidência que se ignora por ser óbvia, há um que se fixou para sempre como um dogma: - Não há rosas sem espinhos!

             Este arqueológico rifão popular terá talvez a intenção de alertar para a malignidade, a impertinência dolorosa dos espinhos, que parecem existir apenas para diminuir, face aos humanos, a pomposa rosa, o seu apaixonado colorido e suave perfume. Na concepção vulgar, os espinhos são o imerecido castigo atribuído à magnificência da rosa. Daí deriva certamente o ditado popular: «Espinho que há-de picar vem logo de bico para cima».

            Tenho para mim que nesta tradicional “sentença” sobre as rosas e os espinhos, há um erro de base que consiste na avaliação superficial dos mérito e valor de uma (rosa) e de outro (espinho). Os ditados populares, muito debruçados sobre evidências, isto é, sobre as aparências, esquecem as mais das vezes o que está para lá do olhar vulgar, de superfície, demonstrando-se incapazes de ver o mundo com o profundo “olhar” da consciência, da memória histórica e da experiência.

 


            Primeiro que tudo convém recordar que o esplendor da rosa dura poucos dias., Os espinhos, pelo contrário, podem durar séculos. Constatação que o adagiário popular registou: «As rosas caem e os espinhos ficam». De acordo com o juízo vulgar, a resistência ao tempo costuma ser considerada uma prova de superioridade, excluindo, é claro, tudo o que se refere a matérias próprias da sociologia política. A rosa, como se sabe, uma vez murcha e morta, evaporados frescura e perfume, tomba da haste e torna-se mórbida e repugnante à vista. Diz o ditado, «Rosa caída não volta à haste». Abandono aqui, de propósito, a leitura metafórica destes ditados populares, que sempre se formam e desmancham à medida das conveniências dos escreventes…

            Depois das rosas se finarem, os espinhos conservam a sua rígida posição, têm mesmo qualquer coisa de nobre, elegante e puro na sua firmeza. No passado, úteis e práticos eram os espinhos das silvas para guarda dos campos cultivados, dos terrenos de plantação de vinha, defendendo assim os frutos amadurados.

            As rosas, coitadas, são usadas para fins mundanos, nem sempre puros e honestos. Pobres flores espaventosas, as rosas têm servido para disfarçar intenções e ludibriar os sentimentos.

 


 
            Os espinhos não se prestam a nada que não seja nobre e recto, não admitem coloridas máscaras, mostram o seu rosto a toda a gente, e se estão “destinados” a picar esta ou aquela mão, fazem-no sem disfarces!

            Não devemos esquecer que foram os espinhos (não as roas), sob a forma de coroa, que tiveram a honra de cingir a cabeça de Jesus Cristo!
 
            Os espinhos podem ser impertinentes, é verdade: - Mas a verdadeira vida é impertinente e espinhosa!   

 



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Ser ou não ser


Ser ou não ser

(O amor vence)

há vozes que se erguem
na escuridão de vidas ocultas

há resquícios de malvadez
em corpos abrasados
pelo clamor de sexo encarcerado

há vultos sinistros
que se movem no silêncio
ávidos do que não lhe pertence

há desejos vãos
em camas furtivas
sôfregas de sémen

há vidas que roubam vidas
na bestificação do fervor carnal

há vazios preenchidos
em momentos usurpados
na cegueira do bestificado



há serenidade
em sonhos realizados
no remanso do amor eterno

nada nem ninguém
será senhor do que não lhe cabe

porque o amor partilhado
é mais forte que o desejo inusitado

há vida
onde existe amor perpétuo

Ana Claré 19/01/2015

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

CANTE ALENTEJANO

Somos Cante (Somos Património Imaterial da Humanidade)
Somos Cante
(Ao Alentejo, ao seu Cante, à minha gente)
"Somos sangue.
Somos terra.
Somos quente suor.
Somos um rosto de frente.

O sangue torna-se terra,
O suor absorve o lenço
A cara dá-se pelos avós
E a voz torna-se cante.

Eu que nasci no Alentejo
Serei chão
Quando a seca me chegar às veias.

A alma
Essa, pelas veredas,
Além, à sombra,
Caminhará de braço dado
E passo lento,
Sincopado pelo coração
Que nos late à capela.
Comunga-se com água a ferver
Coentros, poejos e alho
E esperamos que o paraíso tenha taberna".

domingo, 23 de junho de 2013

O MUNDO

O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
quando consigas fazer
mais p'los outros que por tí!

...
Veste bem, já reparaste?
mas ele próprio ignora
que, por dentro, é um contraste
com o que mostra por fora.

Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.

Nas quadras que a gente vê,
quase sempre o mais bonito
está guardado pr'a quem lê
o que lá não está escrito.

Vemos gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.

Os novos que se envaidecem
 
ESTHER QUINTINO

POEMA

Vós que lá do vosso Império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um Mundo novo a sério.

...
Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão

Uma mosca sem valor
Poisa c'o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
que valem mais do que nós.

Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!

Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande,
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.

Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço.

Sem que discurso eu pedisse,
ele falou, e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.

Morre o rico, dobram sinos;

Morre o pobre, não há dobres...

Que Deus é esse dos padres,

Que não faz caso dos pobres?

O mundo só pode ser
 
ESTHER QUINTINO

quarta-feira, 12 de junho de 2013

ERA UMA VEZ LUIS DE CAMÕES ......


©Joaquim Palminha Silva

 

Era uma vez Luís de Camões…

(10 de Junho de 2013)

  

            Em torno da vida de Luís Vaz de Camões, uma vez assente a cadeia cronológica que os investigadores académicos sempre gostam de mencionar, apuramos que pouco se sabe de concreto sobre a vida efectivamente real, vivida pelo poeta.

            Na verdade, à volta de certas existências, de “feitio” acima do comum, mas de nascimento “plebeu”, adensa-se um misterioso nevoeiro. Um mais que outro, historiadores e críticos literários, mantém equívocos biográficos sobre o épico, contribuindo assim ora para a confusão ora para a ficção sobre figuras, entretanto consideradas “grandes”, uma vez transfiguradas em personagens tutelares da História de Portugal. Há séculos que Luís de Camões faz parte desta galeria de “quadros históricos”…

            Luís de Camões foi homem pobre. Nunca teve o privilégio de ser recebido em audiência real, como chegou a pretender Almeida Garrett (1799-1854), que o imaginou a ler Os Lusíadas ao rei D. Sebastião. De comprovado, sabe-se que para além de ser soldado raso da tropa ultramarina, viveu a sua existência no seio da “meia-tigela” nacional. Isto é, viveu à margem da fidalguia, mesmo a mais falida, misturado com turbamulta, se bem que admirado (à distância, diga-se!) por alguma nobreza e raros amigos de boémia e aventura. Enfim, como se tornou grande vulto depois de falecido num mísero abandono, sobretudo com a perda da independência e a ocupação castelhana (1580-1640), com Os Lusíadas travestidos em “bíblia” da Pátria, Luís de Camões acabou por se tornar o morto mais importante da nossa História, naturalmente para alimento “espiritual” do vivo orgulho nacional e mimo para a nossa memória cultural, sempre tão carenciados…

            O Poder político usou-o paulatinamente para decorar os enfaixes da sua demagogia… Os homens e mulheres da Restauração (século XVII) usaram a sua vida e obra com alguma legitimidade, pois tratava-se então de levantar os ânimos à população do País, em guerra aberta pela manutenção da independência nacional, coisa estimada pelo poeta. Porém, em 1880, a propaganda republicana fez Luís de Camões seu “militante”, durante as festividades antimonárquicas que organizaram para comemorar o 3º centenário da sua morte. O regime da ditadura salazarista pretendeu “filiar” Luís de Camões no partido único (a “União Nacional”), abusando do uso do termo «lusíadas» e vária simbologia de recorte “camoniano”, para militarizar crianças e jovens, através de organização específica (“Mocidade Portuguesa”). A paranoia radical (e ignorante) das hostes esquerdistas e pequeno-burguesas, logo após 25 de Abril de 1974, chegou ao desplante de pretender “sanear” Luís de Camões e Os Lusíadas da memória histórico-cultural da Nação, a pretexto de que a obra do épico fazia a apologia da conquista imperialista e, portanto, colonialista, transformando assim o “pobre” poeta num acabado “militante” da extrema-direita!

            Em poucas palavras, tudo aconteceu a Luís de Camões… depois que morreu!

            Por último, o Poder de Estado organizou a “charada” de transformar o dia do seu falecimento (10 de Junho!), acontecido (1580) no abandono e no sofrimento, numa cerimónia de entrega de “chapinhas condecorativas” disto e daquilo, como dizia mestre Gil Vicente, a «Todo o Mundo e a Ninguém»!

            Era uma vez Luís de Camões… - O verdadeiro!

            Surgiu este no ano de 1976, inesperadamente, através de um códice da «divisão de manuscritos» da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América. Manuscrito com 196 folhas numeradas com a classificação de P-129 e o seguinte título : «ISTORIAS E DITOS GALANTES QUE SUCEDERAÕ E SE DISSERAÕ NO PAÇO».

            O investigador que descobriu o texto, e o trabalhou para edição (Coimbra, 1980), o norte-americano Christopher C. Lund, embora alguns se inclinem para a autoria do manuscrito pertencer a Ruy Lourenço de Távora, levanta sérias e bem fundadas objecções a esta hipótese… Assim, dá-o como redigido por autor anónimo, contemporâneo (século XVI) portanto das «istorias» narradas.

            Se algum investigador dos nossos dias se mortificou a procurar Luis de Camões, o verdadeiro, e quis adaptar o épico idolatrado a pobre personagem da época, frequentador da taberna do «Mal Cozinhado» (no Bairro Alto, Lisboa), sem que se prejudique a aturada paciência dos eruditos, antes pelo contrário, aqui tem um Luís de Camões na sua mocidade ardente e jocosa, metido a fazer “versos” já com o propósito de criticar o desconcerto do mundo, nalguns casos debaixo de alegres composições.
 

            Era, pois, uma vez Luís de Camões…

            Luís de Camões era galanteador, pelo que também lhe acontecia poesia nesta área do humano viver. Eis, para provar isto, uma sua história pitoresca, transcrita do referido manuscrito do século XVI:

            «Indo um dia Luís de Camões passeando por uma rua de Lisboa, viu a uma janela duas Damas jogando as cartas. Parou ele defronte delas e da rua lhe esteve dizendo algumas galanterias, de que elas não fizeram caso, antes mostrando que nem davam fé de quem as dizia, e foram jogando por diante. Vendo ele que aquele seu não dar fé era mais dissimulação do que inadvertência, chegou-se mais ao pé da janela e lhe disse:

                                    Tenha esse jogo já fim

                                   Senhoras que não jogueis mais

                                   Porque entendo que jogais

                                   Para fazer jogo de mim.

 

                                   Se é certo este meu juízo

                                   Não é coisa justa logo

                                   Que estejais fazendo jogo

                                   De quem vos ama de sizo.

 

            Elas puseram os olhos nele, tornando-os no mesmo instante a recolher, mordendo os beiços, disfarçando o riso. Uma que de ambas era mais travessa deixou cair uma carta na rua. Levantou-as logo o Camões, e viu que era um três de paus, e entendeu que aquilo era o mesmo que lhe dizer que se fosse enforcar. Olhando para ela disse:

 

                                   Por acabar dias maus

                                   Da triste vida que passo

                                   Mandai Senhora o baraço

                                   Que já cá tenho três paus.

 

            A isto não puderam elas dissimular o riso, mas mortas dele se recolheram para dentro, e Camões deixando o posto continuou seu passeio.».

 

            Como se pode verificar, no século XVI português podia existir um homem de talento fora dos beirais do Paço, dos palácios dos nobres e da vigilância do Tribunal do Santo Ofício que, de gorro de plumas na mão, como o imaginou o pintor José Malhoa, era alegre de seu natural apesar das agruras da vida… Esse homem de génio foi Luís de Camões, cujo verdadeiro romance biográfico se perdeu na escuridão do tempo que foi passando, mas que este velho manuscrito nos recorda tal e qual, e que eu nesta data tenho a honra de recordar, com toda a humildade possível …

 

            Tenho a honra de vos lembrar Luís de Camões, neste dia que dizem ser especialmente consagrado à Pátria, ao amor dos filhos à terra mãe e sua cultura milenária… Este homem que uns dizem desabusado, pobre soldado raso que regressou uma vez de Ceuta a «manqueja[r] de um olho»,  como ele mesmo dizia, que depois foi soldado na Índia, sem sequer ter ganho, ao cabo de muitos anos, o suficiente para pagar a viagem de retorno à Pátria… Tenho a honra de vos recordar este homem que, segundo um dos seus primeiros biógrafos, quando expirou nem um lençol tinha para lhe servir de mortalha ao corpo, mas que estava destinado, com o seu poema épico Os Lusíadas, a elevar à suprema esperança a fé na Pátria e no povo lusíada, apesar de todas as tempestades e medos tenebrosos da História, e a ressoar por todos nós até ao horizonte da dignidade humana, e apesar da dura crítica, a capacidade de nos erguer de novo…

 

                                   «Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho

                             Destemperada e a voz enrouquecida,

                             E não do canto, mas de ver que venho

                             Cantar a gente surda e endurecida.

                             O favor com que mais se acende o engenho

                             Não no dá a pátria, não, que está metida

                             No gosto da cobiça e na rudeza

                             Duma austera, apagada e vil tristeza.».

                                                                           (Os Lusíadas, X, 145)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Toada do Conde de Montanelas

Toada do Conde de Montanelas
(ideário de um marialva quinhentista)

©Joaquim Palminha Silva

Lá se foi o de Montanelas
sozinho a enterrar
sem padre com balelas
p’ra sua alma sossegar.

Lá se foi o incontido
de que há muito a contar
pois perdeu o sentido
de quando devia parar.

Lá se foi o de Montanelas
grão-cavaleiro apeado…
e as mulheres às janelas
já gabam o finado.

Filho varão só lhe deixaram
um nome ramalhudo…
Mas se nada lhe legaram
herdou arte de topa-a-tudo.

Herdeiro natural d’esta arte
síntese da nossa História
espadeirou por toda a parte
deixando vasta memória.

Soprou em soturnas freiras
fogo posto que ateava
enlaçou rolinhas mouras
cujo corpo se acomodava.

Na África quente e comprida
após turva heroicidade
desaparecia em seguida
a saciar-se na imensidade.

Descobridor buscando sôfrego
leitos para descortinar
nunca lhe faltou o fôlego
nem conjugou o verbo amar.

Insolente máscara carnal
dono de segunda natureza…
Como a palavra anormal
nenhuma sei mais portuguesa.

Olhos d’águia nas ameias
sobre a terra e sobre o mar
escamou quantas sereias
que já não podia prostrar…

D. Juan quedo e mudo
o da aventura empedernida
figura um fofo quase tudo
sem lhe alcançar a medida.

Do langor das sestas necessárias
lá nos climas orientais
despertava o Montanelas
para outras tantas saturnais.

Lá vai o conde de Montanelas
que esteve no cerco de Diu
combateu e cortou as goelas
às orientais que possuiu.

Dizem que guardou a lusa vinha
grande vindimador original
por isso a História definha
carente da poda especial.

Mudou no fim sua cadência
o mestre fecundo sem rival
uma vez perdida a essência
só lhe ficou o cerimonial.

La vai o conde de Montanelas
num choro soluçado fundo
levantando com mãos geladas
testículos de comover mundo.

Transporta-os assim seguros
sobre carrinho-de-mão
pois de moles e maduros
esborrachavam-se no chão.

Lá vai a carantonha
olhai com olhos de ver
um velhinho com peçonha
e de pernas a tremer.

Dizem com pena que foi poeta
mas com a sífilis a roer
nunca se soube se foi peta
se foi o Diabo a escrever.

Quem no século dos tolos
viu a dimensão do barroco
logo a vista viu a todos
na figura deste bacoco.

Não era esquisito Montanelas
sempre erecto p’ra tudo
desde as mulatas mais belas
a meninos de coro sobretudo.

Dotado desta filantropia
cego aos efeito do vício
o cavaleiro não percebia
ao que o sexo é propício.

(Nunca alto afirmem o facto
pois nesta terra de colossos
é preciso muito tacto
não vos partam os ossos.)

Lá se foi o de Montanelas
que tinha muito que contar
e já andava pelas vielas
sem se puder aguentar…

A ver o enterro passar
e sem nada para fazer
já se começa a perguntar
quem lhe irá suceder…

…E à pátria lusitana
com séculos de fastio
extinta a sua chama
acabou-se-lhe o pio.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

QUANDO NASCEU O MENINO JESUS

Quando nasceu o Menino Jesus…
(pequena história de Natal para os “meus” leitores)
©Joaquim Palminha Silva

Historiadores sagrados e profanos estão de acordo que o Menino Jesus veio à luz em Belém (faz precisamente 2012 anos), povoação de “meia dúzia” de fogos, distante de Jerusalém cerca de duas léguas. Os pais tinham vindo de Nazaré dar o seu nome ao censo decretado por César Augusto em todas as terras sob domínio do Império Romano… Era então um acto de soberba imperialista saber quantos habitantes da terra dominava e escravizava a águia romana…

O casal (Maria e José) encontrou em Belém as hospedarias e estalagens a abarrotar de forasteiros e José, como a esposa começasse a sentir a aproximação do parto, resolveu acolher-se a uma corte de gado encostada na rocha duma pedreira “fora de serviço”, nos arredores da povoação. Sem aquela súbita lembrança teriam dormido ao relento, como faziam os serranos naturais do lugar, isto nos afiança Frei Pantaleão de Aveiro, no seu maravilhoso «Itinerário da Terra Santa e Suas Particularidades […]», obra publicada em Lisboa no ano de 1593, que é a verdadeira reportagem do que observou na região o bom do frade, pois por ali jornadeou algum tempo, seguramente não como turista.

Nasceu o Menino Jesus num presépio (segundo antiga definição é lugar onde se recolhe o gado, estábulo), sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, tendo à sua cabeceira apenas S. José e, seguramente, uma legião de anjos para o que desse e viesse, mas que na altura ninguém naturalmente deveria ver a olho nu. Fosse como fosse, muito se falou também se haveria na “santo” local uma burra e uma vaca como idealizou S. Francisco de Assis na sua primeira reconstituição do presépio. Todos sabemos como este santo era muito amigo dos animais, pelo que não há nada a estranhar de idealismo tão franciscano! O facto é que após ele, quantos poetas e pintores se ocuparam do acontecimento, eruditos e populares, tiveram sempre em consideração a presença real dos animais, pelo que, para concluirmos na língua de S. Francisco, se non è vero, è bene trovato!

A história conta-nos que Maria fez a longa jornada de Nazaré a Belém, talvez trinta léguas das fartas, a cavalo numa jumenta, que o marido ia tangendo com um ramo de giesta. Assim, está explicada a presença de um dos animais no presépio. Quanto à vaca, essa já lá deveria estar…

A noite de 24 para 25 de Dezembro foi uma noite de prodígios… De facto, ruiu em Roma o «templo da paz», explicaram os entendidos o fenómeno que, embora há mais de quatro anos não se ouvisse uma espada sair da bainha de um legionário, tinha ali o seu fim aquela paz morta, a paz podre assegurada pelos fáscios romanos, começando a erguer-se a paz celeste, proclamada pelos anjos e arcanjos. Parece que também se calaram os oráculos nos bosques sagrados da Hélade, e na terra latina ouviram-se os lamentos das pitonisas e outras “divindades” voluptuosas, mergulhando para todo o sempre na lenda, donde às vezes saem para entrarem literatura fantástica e na sétima arte. Ainda em Roma, esteve a correr o azeite com fartura e à franca, para quem o queria apanhar, coisa que nos assombra hoje, tão racionado vemos tal género para as nossas bolsas de lusitanos cristianizados… Na Espanha, segundo Eusébio de Cesareia (c.265-340), escritor eclesiástico, viram-se três sóis ao meio-dia, fenómeno que convém registar com reserva (mesmo dentro da categoria dos milagres!), pois o autor nunca andou por terras de Espanha ou praias de Portugal…
 
Nessa noite acudiram ao presépio os pastores dos arredores, com braçadas de flores, frutos e aves de capoeira que ofereceram ao Menino Jesus. Estas populações camponesas de que tanto gostava mestre Gil Vicente, e os nossos singelos barristas eternizaram nos seus bonecos… Lembro aqui, com especial carinho, por exemplo, da graciosidade dos bonecos de barro vidrado e policromado de Estremoz…

Dias depois de 25 de Dezembro, em dromedários ajoujados de guizos e franjas de garrida variedade, estacaram à entrada do presépio os chamados reis magos!

Quem eram, o que queriam e donde vinham? – Segundo a história crítica, eram três “agentes secretos” enviados por Herodes, o Grande, com o objectivo de matarem o Menino Jesus, apresentado pela Astrologia judaica como futuro rei da Judeia. Pois que sentimento poderia ter um monarca despótico que não fosse eliminar todo aquele que à sua beira viesse a governar também?!

Todavia, a história é muito vaga no que se refe a estas três personagens pitorescas, que ficaram na tradição com os nomes de Gaspar, Baltazar e Melchior… Os gregos atribuem-lhes outros nomes e a tradição alquimista, via nos três magos os profetas Enoque, Elias e Melquisedeque que, descidos do céu, vinham adorar o Menino Jesus…

Eram oriundos de que nação ou tribo estas maravilhosas personagens? – Da Arábia, da Mesopotâmia, da Caldeia, ou pura e simplesmente da Samaria? Nesta controvérsia secular também entrou Portugal, pela pena de generosa beleza do nosso Pe. António Vieira que afiança, sem pestanejar, que um dos reis era nem mais nem menos que o monarca de Cranganor, na Índia, onde depois erguemos o pendão das quinas. Este rei veio depois a chamar-se Cheriperimale, concluindo, assim, o nosso grande pregador que, na veneração pública a Jesus, se adiantaram estes longínquos povos aos próprios Apóstolos! – Enfim, esta versão é tão estapafúrdia como a outra que faz dos magos “agentes secretos”!

Já agora, vamos seguir esta ficção, a ver no que vai dar…

Parece que os alforges dos dromedários vinham atulhados de ouro, incenso e mirra, supõem os historiadores críticos, materiais prontos para subornar, pois supondo tratar-se do nascimento de príncipe de alto coturno, defendido por falanges de temíveis mercenários, não se podia regatear moedas de ouro a este e aquele, até chegar à prática do crime, da morte do inocente!

Mas os três magos encontraram-se com um menino deitado numas palhinhas junto a sua Mãe, uma donzela acompanhada por um homem sobre o maduro, de calos nas mãos denunciando o ofício de marceneiro-carpinteiro, e barba mal tratada. Entretanto, o menino tanto fazia “beicinho” como, de olhos fechados, dormitava numa paz comovente… Então, face àquela humilde, serena e radiosa simplicidade, os três homens, contritos se não tocados da graça, dobraram os joelhos e entornaram ali mesmo o seu ouro, mirra e incenso! Depois, partiram como tinham vindo… E nunca mais ninguém os viu nem deles ouviu falar!

Que fez Maria daquelas riquezas que ofereceram ao Menino Jesus? - A ter existido semelhante oferta de tais riquezas, estou em crer que as repartiu pelos humildes pastores, pelo povo de Belém…

Com efeito, cerca de quarenta dias depois, quando apresentou no Templo o Menino Jesus para a purificação, Maria não teve com que comprar o cordeiro que era costume dar aos sacerdotes judeus… Nas mãos do velho e respeitável Simeão, Maria depositou apenas duas rolas que, naqueles tempos, era o óbolo dos pobres e necessitados.

Fim…
. . . Boas Festas!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Manuelinho

Manuelinho
(1º de Dezembro de 2012)
©Joaquim Palminha Silva

Um vento húmido percorre as ruas
no chão batem cascos de cavalos
e passos assustados denunciam gente descalça a caminhar no medo!
Há bolor no ar…
Apagam-se velas.

Um cavaleiro que vive de bagatelas
Já na ferrugem
mira a espada encostada a um canto da vida…

Entre gritos chovem as apostas
sobre a corrida de Alcácer-Quibir…

O desgosto precipita-se a olhar para trás
a ver se alguém o segue.
Carradas de piedade
montes de suplicas
trazem as igrejas cheias de gente
e de pavor…

São os espanhóis, são os espanholzitos
os olé, olé, olé!

O ambiente exige obediência à tragédia.
Chupistas ambíguos passam a fronteira
e apontam o dedo na direcção do saque.

Eis as ruas desertas…

Agora parou o vento…
E o Jesuíta perfeitamente missionário
corre o risco de falar ao Povo…

Um demente salta do meio da turbamulta esfarrapada
gigante desmanchado que assume a responsabilidade…
Seja do que for!

E o dia português tomba sobre as pessoas
imediato e madrileño
hasta la muerte.

A cidade chora pingona…

Pueblo inferior?
- Es muy posible…

Sin embargo…
Importa que el empujón que vendrá de Évora
no nos coja dormidos!

Aclamação de D. João IV, quadro de Veloso Salgado, Museu Militar, Lisboa

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A MINHA RUA ...

A minha Rua…
©Joaquim Palminha Silva

Rua, via pública urbana ladeada de casas, lojas, paredes velhas, salitrosas… Artéria no emaranhado sanguíneo de uma cidade…

Rua em alegre alvoroço, com as festas populares de Primavera e Verão! - Em que funda gaveta da memória metemos o namorado dia de Santo António?

…A Rua à nossa espera, no regresso da Escola e, como o desafio era um “modo de estar”, faziam-se corridas ao pé-coxinho: «O último chegar é parvo!» … Rua que dava para o pequeno jardim da Praça… Fim-de-tarde de um remoto, arqueológico Verão, e a roda de meninas floreando a cantiga pelos ares: «Fui ao Jardim da Celeste, giroflé, giroflá… giroflé, flé, flá…»; «…ó Senhor Barqueiro, deixai-me passar, tenho filhos pequeninos…». Doce e persuasiva certeza do amor singelo entre meninos e meninas, quando este sentimento ainda não era assim designado… Talvez porque ainda não corrompido:
«Rei,
capitão,
soldado,
ladrão,
menina bonita
do meu coração.»

Tomba uma lágrima furtiva…

Recordo: «- Mãe! Já chegaram as andorinhas!». Lembro os ninhos nos beirais, sujando paredes caiadas de branco, mas todos a dizer: «Não se toca nas andorinhas, pois são as “galinhas de Nossa Senhora”».

Travessa das Pombas onde nasceu e viveu a Maria da Graça, habilidosa costureirinha, rapariga de linda voz («poderia ter sido fadista profissional, em Lisboa»), que o corpo escultural lançou na vida desditosa e, uma vez posta no meio da Rua, foi o que se viu, tornando-se ordinária e Maria Desgraçada!

A minha Rua foi também caminho para Deus, afastando o jovem liceal João Fonseca da sua queda para a estroinice e hábitos de parasitismo, de que à boca grande o coimavam, para o levar a vestir a sotaina e, afável de temperamento, embarcar um dia missionário salesiano para o longínquo Timor, onde de resto veio a morrer…

A minha Rua… Só graças a ela e aos momentos que ali vivi, a imagem do meu País se tornou real, sensação física e, ao mesmo tempo, extremamente inspiradora. Porque a minha Rua, segundo os anos foram passando, tomou formas diversas, como se tivesse a preocupação peculiar de me acompanhar, de acompanhar os outros vizinhos, e ser uma síntese da cidade, de Portugal.
 
A camioneta da carreira, com um cão galgo pintado nos lados, há muito que partiu… Depois, percebeu-se que a minha Rua tinha alguns automóveis ao rés das portas das casas, a gozar o relento e a roubar espaço aos moradores… Passaram anos, e a minha Rua («Pai Nosso que estais nos céus!…») enterrou alguns dos seus vizinhos. Ainda hoje recordo com estupefacção o senhor Chico Cauteleiro (nós tratávamos todos por senhor, fique registado!) que, de repente, entre duas fracções de uma cautela a vender, caiu fulminado no meio da rua, morto naquele instante, como se “alguém” o houvesse chamado, e ali ficou um par de horas de olhos muito abertos para o céu, até chegar o «delegado de saúde», a polícia e familiares! Que coisa, meu Deus!

Das portas de casa dos ricos, há algumas décadas que desapareceram as “criadas” de touca e avental cor de neve. E também desapareceu a viúva de um lavrador, senhora de grande fortuna (dizia-se), madrinha de muitos meninos pobres, que vivia sem capacidade de resistência, mas teimando que os médicos, os medicamentos, hospitais e clínicas foram feitos para extorquirem o dinheiro às viúvas ricas! Tempos depois, as necessidades físicas e mentais impuseram-se, e os herdeiros meteram-na numa «Casa de Repouso». Hoje, o seu prédio argumenta “contra” a vida de degradação e ratazanas, e é discutido nos Tribunais pelos herdeiros desavindos, num escândalo de ódios

A minha Rua é quase uma «História de Portugal», talhada à cutilada dentro das muralhas da cidade, e vai da Índia a Alcácer-Quibir, dobrando o «Cabo Não» - O Zé-Zé das bicicletas foi para a Legião Estrangeira da França… e nunca mais ninguém o viu! O meu companheiro de maluqueiras juvenis, o Rã, emigrou para a Austrália. Uma vez escreveu para alguém da Rua, a dizer que vivia num imenso deserto interior, ganhava muito dinheiro mas não havia onde o gastar…Vá lá a gente emigrar! – Ora adeus!

Na minha Rua até houve um sapateiro de “vão de escadas”, que dizia “décimas” de improviso, e um barbeiro à esquina que tinha o único papagaio palrador da cidade, com o suplemento de que era «malcriado e anarquista»! Quantos trambolhões de bebedeiras amparou o candeeiro de pé alto da minha Rua?

Na minha Rua havia uma casa de lavrador riquíssimo que, nos anos de penúria rural, mandava as criadas atirar aos pedintes, pelas escadas a baixo, pães de quilo revestidos de bolor… E esta gente ia à missa! E esta gente dizia-se católica! Que má frequência tinha então a igreja da Praça!

Ao lado do jardim, na Praça, sempre e mesma cena… Domingo de manhã à mesa do café quase deserto, o sujeito (óculos de grossas lentes) conversava com o jornal, era p tradicional “diálogo” monótono do velho reformado do Tribunal, habituado a falar sozinho, gozando os primeiros raios de sol e definhando todas as semanas… Mas aguentava à custa de remédios para tudo…Com o dedo de unha indiscreta coçava a cabeça… Quando morreu veio a polícia e fez-se um inquérito, disseram-me. Parece que o sujeito tinha jornais proibidos debaixo da cama, desses papéis velhos que prometiam justiça social eterna… Quem o recobriu no funeral não foram os vizinhos, pois foi a enterrar só, mas sim a mortalha espessa, invisível, da humana desilusão…

A minha Rua, calma e recolhida no ventre da cidade, nunca acarretou as indispensáveis despesas em oportunas obras de reparação. Apenas se fizeram, de urgência, as mais gritantes nos estragos, quando o pavimento abatia ou os canos esgotos rebentavam… Mesmo assim, só tinham a casa caiada (nas vésperas do S. João) os moradores pobres, pois os ricos «não estavam para essas bacoquices»…

Com o rodar dos anos, a toilette da minha Rua obedeceu com rigor ao estilo de cada época, como a música que se espalhava pela atmosfera vinda das janelas e varandas: - O tango e o fado, símbolos de tragédia e dor, as zarzuelas e outras espanholadas cheias de salero e castanholas; depois, a música da FNAT (que hoje se chama INATEL), a “música ligeira nacional” com os «serões para trabalhadores» repletos de trinados femininos e masculinos, inclassificáveis, saindo das telefonias sob a responsabilidade da «Emissora Nacional», apanhando “à traição” melodias estrangeiras. Enfim, truques de importação. Deixem-se estar quietos: - «É uma casa portuguesa com certeza…».

A minha Rua deixou-se amar e, entre beijos escondidos e assinaturas de empréstimo, casamentos com aflições entre portas, cedeu o lugar à podridão sem um protesto, sem uma observação, um carinho da Junta de Freguesia, do Município. Os da política, sempre hipócritas, só se lembram da minha Rua quando começa o tempo da pedincha e recolha de votos! … Ai! a minha Rua: – Quem te viu e quem te vê!

Há vezes escuto a minha Rua dizer-me ao ouvido: «- Chut, primo, o que lá vai, lá vai. Foi sonho… Esta vida é apenas uma curta passagem!».

Quando eu era criança, via-a tão Senhora de si, tão “sol nascente” ou assim o julgava… Hoje apresenta-se-me desabrigada, uma autêntica vadia, possuída por desequilíbrio mórbido, disfuncional, testemunhado nas casas arruinadas, no pavimento descalçado aqui e ali, nos prédios vazios, de portas tombadas, como bocas cheias de cáries e infecções indecifráveis. A minha Rua, toda energia e convivência há 60, 70 ou mais anos, repugna hoje de desfeita, fede e irrita, transformada num esboço de múmia desdentada que só poucos enxergam e se doem e, para cúmulo da indecência, as esquinas são urinóis a céu aberto! A minha Rua, como uma mulher nascida prendada e educada, bela, mas pobre do n.º tal ao n.º tal, remediada do n.º de polícia tal ao n.º de polícia tal, rica em dois ou três prédios; a minha Rua, dizia, que todos nós deveríamos respeitar na medida em que a fomos conhecendo e vivendo, ao abandonar-se-nos confiante, acabou tombando na atmosfera insensata da nossa indiferença e agressividade cosmopolita, como se fosse uma mal-casada moída de pancada pelo brutamontes do marido. Depois, fragilizada, confundida, deixou-se arrastar sem vontade própria para a prostituição dos plásticos chineses, das lojas de materiais sem nome que obrigam a falências e abandonos, deslizou em seguida para o aluguer de quartos a imigrantes e indigentes ou indigentes e imigrantes. Até um lupanar de brasileiras, moças muito compostinhas e adoráveis, seguramente infortunadas, esteve instalado na minha Rua, dois anos a angariar fregueses… Um dia, o clã das matronas de buço regimental (explicável pela psicobiologia!) juntaram-se nas imediações do gabinete do Presidente de Câmara, e reivindicaram a expulsão das “meninas de telenovela” que «viviam à sombra dos respectivos maridos e, por conseguinte, roíam o orçamento familiar», vá lá saber-se porquê! - Ai minha Rua!

A minha Rua, infeliz, desentendida da malha urbana da cidade, desgostosa de habitar numa teia de artérias decadentes, chega a ter o ar de quem roga: «Deixem-me morrer em paz!».

Como as Travessas sem consciência cívica e de calçadas rotas, Largos e Praças entulhadas de “mobiliário urbano” de fancaria, que se porta mal com o espaço envolvente, também a minha Rua perdeu a auto-estima, como hoje dizem os entendidos da psicologia a granel. A minha Rua já aluga quartos a qualquer um, já deixa que nas suas casas fanadas e de telhados rotos se deite qualquer “papa-açorda”, sem lhe impor as regras da civilidade, os centenários códigos de convívio social, habituais nesta cidade tocada de sinos e preces antigas, de espectros que gemem sob as pedras, e de memórias arrecadadas numa Biblioteca Pública cheirando a bafio, com livros ratados, como se fossem dentes podres de gigantes arrumados em prateleiras.

A minha Rua… Vive hoje uma degradação e abandono contínuo. Todavia, parece que por durar muito e a morte a espreitar com distracção, a providente natureza conserva-a mesmo arruinada e, com dobrada energia ou simulacro de vigor físico e sentimental, depois de tantos abalos espantosos e incúria humana, fá-la desdenhar do tempo…

A minha Rua está sentada num “banco de eternidade”, à espera já não sabe de quê nem de quem, de perna traçada, mostrando as «meias de vidro» cheias de “malhas”…

A minha Rua… As ruas das cidades do meu País: - Com os ossos à mostra, como pessoas trituradas pelos anos e maus tratos, as carnes rasgadas pelas dolorosas restaurações e desapiedadas inovações de importação, descosidas do Portugal português, perdidas no meio da podridão…

A minha Rua… As nossas ruas, minhas queridas e queridos amigos! Quantas andam para aí já sem moradores, sem risos de crianças, sem raparigas de seios roliços namorando às janelas belos jovens suados da correria da bola; quantas andam para aí cheirando a mofo, de braço dado com os miasmas do meio ambiente doentio…

Ruas antigas das cidades de Portugal, fizeram todas maridanças com o desleixo, desprezando moradores e vizinhos e hoje, carrancudas e tristes, raspam com cacos de telha as carapelas das postulas, no meio de «uma grande sem-vergonha»!… Ruas numa pilha de nervos! Ruas de “ir pela água a baixo”, com a moinha das demolições a roer-lhes o interior, ajudadas pela torpeza e relaxidão dos habitantes! …

Ruas de Portugal, hoje bazófias urbanas: - Pequenas “pátrias” destroçadas, restos, tábuas de Nau à deriva no mar de sargaços que é a angústia geral, tábuas podres há muito desprendidas dos Lusíadas!
 
In MAIS ÉVORA

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

ADEUS Ó MAR !

Adeus ó Mar!
©Joaquim Palminha Silva

Nascemos para pintar o mar azul
com muitas velas brancas
e de norte a sul
cavalgar bravias ondas.

Nascemos talvez protegidos
desde a «Nau Catrineta»
de saudade vestidos
tendo ao leme o poeta.

Praia da Europa
beira-mar d’alma
marulham-nos à porta
mil vidas de espuma.

Tiraram-nos o mar
tempestade ou bonança
foi tirarem-nos o lugar
onde morava a esperança…

Somos hoje sussurro breve
marinheiros de pintura…
- Que a Senhora da Guia nos salve
nesta triste aventura!

Eterna canção das ondas
areias finas de outrora
fosforescências e lendas
foi-se tudo embora…

Ó grande mar atlântico
calvário prateado do português
banho de desgosto poético…
- Já só no Fado te vês!