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segunda-feira, 2 de março de 2015

Rio de Janeiro


 
Rio de Janeiro

(1 de Março de 1565/450º aniversário da fundação da cidade)

A baía da Guanabara («água penetrante» na língua tupi) alimentou durante muitos anos a ilusão de que ali desaguava um rio. Isso o escreveu o primeiro governador do Brasil, Tomé de Sousa, em carta enviada a D. João III (1 de Junho de 1553): «[…] que pinte quem quiser como deseje um Rio, isso tem este de Janeiro».
A baía permaneceu durante anos desabitada de europeus. Os índios ribeirinhos que ali viviam pertenciam à grande família dos tupi-guaranis, e eram considerados dóceis em comparação com outros mais arredios. Frequentavam a baía de Guanabara navios portugueses, mas disputavam-na de forma mais ou menos pirata navios espanhóis e franceses. A região era de grande exotismo vegetal, extremamente fértil e muito cativante ao olhar.
Os portugueses inquietavam-se muito com a presença das outras potências na região, sobretudo com a estadia dos franceses, que chegaram a construir uma fortaleza, apoiados pelos aguerridos índios tamoios, inimigos dos portugueses e das outras tribos que por ali tinham o seu habitat.
O Pe. Manuel da Nóbrega insistiu então pelo estabelecimento definitivo e permanente dos portugueses na formosa baía. Finalmente, o governador Mem de Sá, em 1559, recebeu ordem de Lisboa para expulsar os franceses em definitivo. Assim se fez. Em 1563, partiu para a baía da Guanabara uma expedição comandada pelo jovem sobrinho do governador, de nome Estácio de Sá, com o auxílio da Baía, do Espírito Santo, sobretudo de São Vicente, onde os padres da Companhia de Jesus lhe dispensaram especial apoio. Beneficiando da evangelização dos padres Nóbrega e Anchieta, que ensinaram aos índios a concórdia, desembarcaram os portugueses, ajudados pelos índios amigos, a 1 de Março de 1565 (há precisamente 450 anos!) à sombra do morro «Cara de Cão» e, assim, foi fundada a cidade do Rio de Janeiro,
Todavia, os índios tamoios, manipulados pelos franceses (que não se conformaram com a perda da sua fortaleza) incomodavam quanto podiam a empresa portuguesa. Apesar das dificuldades, Estácio de Sá fundou a cidade segundo as normas oficiais da época. Não foi, pois, uma povoação que nasceu de algumas casas ou cabanas: - O Rio de Janeiro não foi aldeia, depois vila e, finalmente, cidade. Estácio de Sá ergueu, embora de forma rudimentar, toda a máquina administrativa.
O que se diz das cidades capitais que deram origem a nações, aplica-se de forma excepcional ao Rio de Janeiro, pelo seu desempenho como centro aglutinador, dando ao Brasil a coesão elástica, o vigor inquebrantável, a exótica e musical personalidade.
Sem o Rio velho dos Sás, pelo menos de 1565, integrado depois no conjunto que é a América de raiz cultural portuguesa, não teríamos talvez o Brasil, único e inteiro. A fundação do Rio de Janeiro é de facto uma epopeia… à medida de Luís de Camões!
E sobre tudo isto o Corcovado, com o seu monumental Cristo Redentor, coroando a cidade que, a seus pés, desenha o mais inesperado, multiforme e discordante espectáculo da vida humana!
Nas comemorações do 4º centenário (1965) da cidade, escreveu Vitorino Nemésio, na sua Ode Ao Rio/ ABC do Rio de Janeiro, estas tão sentidas composições:
 «[…]
Rio velho sangue tem
Na folha da amendoeira:
Muita gente lhe quis bem
Mas nunca desta maneira.».
 
Cabe no Rio o Brasil todo. Cabe no Rio de Janeiro a história da mais penosa e edificante emigração portuguesa! Ali sambaram portugueses e libaneses, italianos e espanhóis, que todos lá trabucaram, todos lá foram sendo o Brasil.
Um dia despedi-me do Rio de Janeiro como se de Portugal partisse, e o estranho sentimento não se obrigou a palavras, mas a sons e musicalmente, dedilhando violão de marca.
Grandíloqua é a história do Rio de Janeiro, académica nunca, por graça de Deus e amor de muitos poetas!
 Lembro outra vez Vitorino Nemésio:
«Rio tem Largo do Machado,
Boate chique, brotinho bom,
Com mão de santo no Encantado,
Açougue à porta, filé minho,.
 
Rio tem povo na besteira,
Tem grã-finagem no piquini,
E o bem-querer na geladeira,
Mas vira fogo sendo pra ti.».
 
Esta famosa sala de honra do Brasil que é o Rio, vai ser obstruída com uma peça “artística” símbolo da imbecilidade lusitana, produzida por artista plástico (Joana Vasconcelos) representativa da vacuidade actual: - Um galo de Barcelos (Pop Galo) de sete metros de altura, programado para desembarcar na Praia do Leme a 10 de Junho!
Apesar da manifestação cultural sumária, pobre e mal pregada ao 10 de Junho, desculpa lá Rio de Janeiro este “brasão” formidável que nos querem pintalgar para a posteridade! Desculpa lá, ó Rio de Janeiro, faz-nos o favor de ver nisso apenas largo roda pé de azulejo, nada mais e, logo que possas, livra-te do hirto galo, sinergia de uma raça de gente coarctada, que não te merece um carinho!

 


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Um grande acontecimento cultural! 1ª edição da obra completa do Padre António Vieira s.j.

Padre António Vieira s.j.


Joaquim Palminha da Silva
*


Já pode ser saciada a avidez dos estudiosos, dos apreciadores da capacidade luxuriante da língua portuguesa e dos leitores comuns, pois a obra completa do Padre António Vieira finalmente veio de ser editada, fruto de um trabalho de mais de uma década, agrupando mais de 100 investigadores sob a coordenação do Doutor Pedro Calafate e do Doutor José Eduardo Franco, director do Centro de Literaturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa. A ideia desta monumental edição, cuja intenção já remonta há 200 anos, encontrou no decurso da História vários e importantes impedimentos, não sendo menor o anti-clericalismo de parte da classe dirigente e, desde o Marquês do Pombal, uma animosidade anti-jesuítica muito persistente. Por fim, todo este arsenal desmoronou-se e o papel da Companhia de Jesus na missionação católica e difusão da língua e cultura portuguesa além-mar, acabaram por sobressair, deixando ver claro e em profundidade o desempenho religioso, político e cultural do Padre António Vieira numa época bastante conturbada de Portugal, quando da luta pela sua independência face à Espanha, e pela sua afirmação como nação europeia.
Até agora, tem passado praticamente desapercebido quanto a publicação da obra completa do Padre António Vieira é, a todos os títulos, um grande acontecimento cultural !
Além do que se conhecia em várias edições incompletas das suas Cartas e demais escritos dispersos, publicados muitas vezes sem o cuidado necessário, foram encontrados mais de 5.000 manuscritos inéditos que, uma vez estudados, foram agora publicados pela primeira vez. A personalidade e obra do Padre António Vieira estará agora mais perto de alcançar a sua real dimensão, apesar de até à data já se terem efectuado mais de 1.000 teses de doutoramento e mestrado, sem falar dos inúmeros seminários e conferências sobre o mais célebre padre jesuíta português de todos os tempos. Na verdade, a copiosa obra do Padre António Vieira e o seu manejo da língua portuguesa mereceram atenção dos nossos maiores escritores, que o leram e estudaram confessando que o tinham por mestre, a quem deviam muitos ensinamentos ostentados depois nas suas obras. Entre outros, foram leitores atentos do Padre António Vieira, Camilo Castelo Branco e Fernando Pessoa, totalmente rendido à sua escrita, chamou-lhe «imperador da língua portuguesa». Aquilino Ribeiro confessou-se devedor de muitas lições que a sua leitura lhe ofereceu. Já nos finais do século XX, o Prémio Nobel da Literatura, o José Saramago português, convicto anti-clerical, numa declaração de franqueza que só lhe ficou bem, confessou que o Padre António Vieira era sua leitura obrigatória.


Panorâmica dos Paços da Ribeira no século XVII (Lisboa)
 
António Vieira nasceu no seio de família modesta, seus pais eram servidores do Paço Real, moradores na Rua do Cónego, Freguesia da Sé (Lisboa). Em 1614 emigrou com os pais para o Brasil, fixando-se na Baía. Fez os seus estudos iniciais no Colégio dos Jesuítas, tendo entrado para a Companhia de Jesus com 15 anos de idade. Dois anos depois fez votos de pobreza e propôs-se missionar no interior, entre as tribos de índios e escravos negros. Assinalado pelos seus professores como especialmente dotado para as línguas (aprendeu a língua tupi-guarani dos índios, e o dialecto dos escravos negros, o quimbundo) e de grande ajuizar intelectual, já em 1626 era encarregado de redigir em latim para o geral da Companhia a carta anual da província, onde relatou as peripécias do ataque holandês à então capital do Brasil, nos anos 1623-1624.
Em 1634, pouco tempo após a sua ordenação como sacerdote, começou a espalhar-se a sua fama de grande pregador. Os seus sermões procuravam divulgar qual era o sentido da luta contra os holandeses, que pretendiam retirar da posse da coroa portuguesa todo o Brasil, preparando assim a opinião pública para a luta e o apoio a Portugal. Em 1641 veio a Portugal, integrado numa delegação portadora da adesão do Brasil a D. João IV. O Rei, conhecedor dos seus dotes de orador e vasta erudição, nomeou-o seu conselheiro. O Pe. António Vieira teve então ensejo de pregar para um escol de nobres dotados de alguma cultural, na igreja de S. Roque (Lisboa).


 
A oratória sagrada era então um género muito escutado, por isso, tal como no Brasil pregou contra a corrupção e defendeu a causa portuguesa contra a usurpação castelhana, em Portugal sustenta a necessidade de concentrar todas as energias e recursos nacionais na mobilização contra a Espanha, que nos guerreava, inconformada com a nossa independência, sobretudo nas vésperas das reuniões das Cortes, em 1642. Desempenhou missões diplomáticas, a mando do Rei, e propôs, com pleno êxito, a fundação de uma companhia destinada a proteger da cobiça dos holandeses o transporte de mercadorias entre o Brasil e Portugal (Pernambuco estava sob domínio holandês). O Pe. António Vieira deslocou-se em 1646 e 1647 a Paris e a Haia. Em último recurso, de forma a atenuar os ódios castelhanos, D. João IV propôs o casamento do herdeiro de Reino com a princesa herdeira de Espanha e, nesse sentido, enviou o seu conselheiro a Roma em 1650, de forma a negociar esta proposta sob a tutela do Papa…Mas o intento malogrou-se. Todavia, conseguiu convencer os cristãos-novos (judeus portugueses) exilados em Roma, na Holanda e em França a investir capitais na companhia portuguesa, o que os isentava do confisco dos bens, sediados em Portugal, pela Inquisição. Estas medidas suscitaram-lhe ódios terríveis.


Colégio da Companhia de Jesus em Roma, no século XVII.
 
            Em 1652 regressou às missões do Maranhão (Brasil). À sua actividade de catequista juntou a denúncia dos abusos dos colonos portugueses sobre as várias tribos de índios. Obrigado a voltar a Portugal em 1661, justifica a acção da Companhia de Jesus no interior do Brasil junto dos índios e, num sermão na capela real, condena as arbitrariedades e atrocidades dos colonos portugueses sobre os índios. A Inquisição, seriamente desagradada com a actividade do Pe. António Vieira em relação aos cristãos-novos, tacha-o de hereje e obriga-o ao recolhimento, com base num manuscrito de sua autoria, onde manifesta a crença num «Quinto Império» e, metaforicamente, na ressurreição de D. João IV. Devolvido à liberdade, partiu para Roma no ano de 1669. Aí se distinguiu como pregador na língua italiana, conseguindo que a Santa Sé peça contas ao que andava fazendo a Inquisição portuguesa, a forma como decorriam os julgamentos dos judeus cristãos-novos e as respectivas expropriações dos seus bens. Em 1675 regressou a Lisboa, deparando-se com mudanças na Corte. Afastado da Corte e dos negócios de Estado, enfrentou um profundo desânimo, pois nunca quis nada para si nem se aproveitou de nenhuma situação para granjear fortuna ou posição política. 
 
Em 1681 regressou definitivamente ao Brasil. Com 80 anos de idade, o Pe. António Vieira assumiu o cargo de visitador-geral das missões jesuítas no Brasil (1688) e ainda conseguiu forças para intervir, de forma a atenuar a repressão, na revolta dos Palmares, de negros escravos fugidos (1691). Em 1695, um cometa que foi visível na Baía inspirou-lhe uma meditação que intitulou «Voz de Deus no Mundo, a Portugal e à Baía», foi esta a sua derradeira presença escrita nesta vida. O navio que trouxe ao Reino a notícia da sua morte, no Verão de 1697, transportava ainda cartas suas.
 
No admirável «Sermão da Sexagésima», o Pe. António Vieira expõe a sua concepção da escrita e da oratória. O negativo, na qual define a oratória que se praticava, consistia no excesso de vocabulário precioso e raro e na busca de efeitos formais. A isto opunha o Pe. António Vieira uma linguagem chã e sóbria e o respeito, no sermão, pelo texto escrito. No que se refere à linguagem, é incontestável quanto ele escapa aos vícios dos cultistas, o seu vocabulário e construção frásica são funcionais e correntios, pode dizer-se, portento, que ele alcançou um equilíbrio raro e genial sobre a linguagem falada e a escrita. Alguns dos seus Sermões são grandes exercícios de subtileza.
 
O Pe. António Vieira viveu os seus últimos dias no ambiente de psicose colectiva que acompanhou a Restauração, e lhe ditou o sentimento de frustração face a uma Nação em declínio, mas ainda lembrava da sua época de grandeza mundial. O seu profetismo, possibilitado pela exegese alegórica da Bíblia, e que vinha desde os primeiros tempos do cristianismo, deve seguramente explicar-se, em grande parte, à necessidade de encontrar fontes de inspiração que levantassem o ânimo nacional, e novamente dessem aos portugueses a crença num futuro e benigno destino pátrio.   

 

sábado, 17 de janeiro de 2015

O Beijo proibido

Como muitos de nós passaram por situações identicas, publicamos texto do nosso amigo Dr. Joaquim Palminha Silva, que retrara uma situação deveras curiosa.
 

 


Joaquim Palminha Silva

O beijo proibido
(como um conto)

«Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo.»

- Florbela Espanca, de «O meu desejo»
in Reliquiæ.

            A história que vou contar é tão verdadeira como o sol. Passou-se há cinquenta anos e teve por palco de origem a mata do Jardim Público de Évora, e por actores um par de namorados…


            Um dia destes, por um feliz acaso, alcancei o mais difícil: regressei à mata do Jardim Público acompanhado dos dois ex-namorados, envelhecidos pelo tempo e, entretanto, separados pelas circunstâncias da vida. Enquanto caminhava com os meus amigos, batiam-me nos ouvidos as palavras da pergunta que andava a arquitectar, desde que havíamos passado o portão do Jardim, frente ao palacete onde está agora o «Tribunal da Relação» … Não resistindo mais, apontei um pitoresco banco da Mata…
            - Lembram-se? Foi ali…
            - É verdade!… Foi ali!... (disse ele acabrunhado).
            - Se me lembro?! Ah!, se me lembro?! (reforçou ela).
            Quantos anos tinham em 1960? Talvez quinze, não mais…
            Ela era aluna do Liceu. Filha da média burguesia de Évora. O pai engenheiro numa empresa da cidade. Ele frequentava o curso comercial na Escola Industrial e Comercial «Gabriel Pereira», instalada no Convento de Santa Clara, filho de modesto funcionário público e de uma ex-empregada da «Arcada de Paris», (Praça de Giraldo).            Uma tarde faltaram às aulas…. Na mata do Jardim havia folhas secas pelo chão, denunciando a tradicional negligência com que o espaço era tratado pelo Município. Tinham então quinze anos e amavam-se de forma tão natural que nenhum dos colegas, maliciosos e brejeiros, encontrava maneira de os apontar a dedo. Ela era duma rara beleza, de todo estranha à Charneca alentejana. Ele era parecido com um jovem poeta, dessas figuras esguias desenhadas nos anos 40 por Júlio (dos Reis Pereira).


            Passearam no Jardim de mãos dadas. O olhar no olhar, numa serena contemplação a escorrer sentimentos de ternura. Para não darem nas vistas dirigiram-se para a mata do Jardim. Sentaram-se naquele banco forrado de azulejos. Que a vegetação em redor quase escondia… Depois, enternecidos acabaram por se beijar. Colaram os lábios, escutando ao mesmo tempo o coração a resfolegar de ansiedade. Naquele instante, o tempo parou! O céu era muito azul. O vento morno, bafejando os verdes ramos, parecia querer avisá-los sem alarde. Ela suava um pouco, sob a bata do Liceu, ruborizada… Ele tinha os cabelos em desalinho… Sobre as suas cabeças caiam penetrantes aromas… Completamente absortos, nem viram…
            Súbito, uma sombra inesperada poisou-lhes sobre as cabeças unidas: - Era o guarda municipal da mata do Jardim! Homem esquisito e de andar aleijado, quase à sua frente, na sua farda de cotim e boné estafados. Rosto incaracterístico, onde avultavam o mau hálito e uns laivos de saliva espumosa aos cantos da boca, como os cães costumam. Uma voz roufenha, como que a rosnar…
            «- Soltou-se o diabo?! Agora é assim? Seus desenvergonhados! Não sabem que isso é proibido!». Em silêncio, nenhum dos dois interrompeu o guarda, que continuou por alguns instantes a fustigá-los com insinuações imundas, repugnantes…
O sistema das proibições, oleado por séculos de conservadorismo e “modernizado” pela ditadura fascista, pôs-se em marcha e transformou, desapiedado, o beijo do par de namorados num caso de atentado ao pudor!
Identificados pelo guarda do Jardim Público como alunos de dois estabelecidos de ensino público da cidade, um dia depois foram chamados perante a autoridade escolar: ele foi levado à presença do director da Escola Industrial e Comercial «Gabriel Pereira»; ela conduzida até ao reitor do Liceu. As horas desse dia foram penosas, com interrogatórios e apresentação de uma panóplia de castigos, se a “pouca-vergonha” se repetisse!
Quantas torpezas lhes foram ditas? O seu singelo namoro foi cercado por mentes imundas, que tentaram parasitar os seus sentimentos, salpicando-os de lama. Uma multidão de ladrões da alegria pavoneou-se então, vitoriosa, a cavalo na sua “moral” de coveiros: - Era proibido beijar!
Os primeiros dias, meses, anos… separaram-nos.
Com o passar do tempo, tudo esqueceu a todos. Até ao dia em que, por um feliz acaso, visitei a mata do Jardim Público com os dois... Contemplei-os, sustendo a respiração. De repente, vi ela aproximar do rosto uma das mãos a limpar furtiva lágrima… Vi que haviam dado as mãos… Olhá-los naquele instante, foi ver a estátua da mágoa fitando com resignada saudade um banco de jardim. Percebi que aquele juvenil amor havia sido feliz acaso da Natureza, desses fenómenos que duram uma vida! Então, senti necessidade de lhes comunicar quanto foram desprevenidos namorados em plena ditadura e, portanto, vítimas do fascismo! Tinham cometido um acto imperdoável, ao ignorarem que era proibido beijar no Jardim Público!
Por pudor, calei em mim o comício e o panfleto político. Afastei-me um pouco daquele par, para não sentir ranger a esperança despedaçada…
A este tempo a sombra do fim-de-tarde tinha já invadido a mata do Jardim Público… À saída, quando passei pelo abrigo do guarda municipal, acudiu-me à lembrança o outro guarda, o aleijado a espumar aos cantos da boca. Parece que morreu contrito (disseram-me depois) e, por isso, se habilitou a entrar no Reino… Se Deus lhe perdoou, delator abominável de miudezas, fechemos-lhe nós também os olhos, pois não passou de um desgraçado… E sem saber porquê, os meus olhos molharam-se: - Fascismo nunca mais!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

CONTO DE NATAL

Com a devida vénia, publicamos CONTO DE NATAL que nos foi cedido pelo Dr. Palminha Silva, Amigo desta Associação.
 
O evangelista Lucas

e o estalajadeiro de Belém
(conto de Natal)
 
«E, quando eles ali se encontravam,
completaram-se os dias de ela dar à luz e
teve o seu filho primogénito, que envolveu em
panos e recostou numa manjedoura,
por não haver lugar para eles na hospedaria.»
 
- in Novo Testamento (Evangelho segundo S. Lucas), 2-6, edição Difusora Bíblica, 1999.
 
 
Esta história aconteceu cerca dos anos 80-90 da nossa era e, dizem os entendidos em história do cristianismo, que Lucas, o evangelista, ainda assistiu ao cerco e destruição de Jerusalém pelos romanos…
 
            Entretanto, saiba-se que Lucas percorreu parte da Palestina para recolher informações, detalhadas se possível, sobre o nascimento, vida e morte de Jesus Cristo. Na ordem das suas prioridades uma das primeiras etapas foi a cidade de Belém, escolhida com o objetivo de se alojar na única estalagem que havia na cidade e que, segundo os seus cálculos, era o mesmo mísero recolhimento do tempo de Jesus Cristo.
 
            Por acaso (ou talvez não!), Lucas teve sorte, pois a estalagem era a mesma e o antigo estalajadeiro que havia atendido José e Maria era o mesmo. Estava muito velho, muito triste porque não viva quase nada e sabia próxima a morte. Quando Lucas lhe contou a razão da sua viagem, e o porquê de ter procurado a sai estalagem, o muito velho e doente estalajadeiro fez questão em lhe declarar o seguinte:
            «- Agora que o vosso profeta morreu e ressuscitou; agora que, segundo me dizem, houve muitos milagres; agora que todos falam dele e de sua Mãe e dos seus Apóstolos, é fácil condenar o gesto daquele que teve de recusar hospitalidade ao pobre casal naquela distante noite de um frio Dezembro. Meu caro viajante, eu não sou nem vidente prendado por Deus nem vulgar adivinho. Pelo que não podia saber quem fosse aquele velho de mãos calosas de artífice e aquela jovem mulher, que me pediam um quarto para pernoitar e, ainda muito menos, que a jovem era a futura Mãe daquele a quem chamais o Filho de Deus.
 
         Mas atente bem no que lhe digo, mesmo que tivesse adivinhado a identidade presente e futura do casal, era impossível servi-los porque a minha casa, como já deve ter visto, tem poucos compartimentos e naqueles dias tumultuosos, por causa do recenseamento, estavam todos mais que repletos de gente vinda de todas as partes da Judeia. Recordo-me bem: os hóspedes eram tantos que armei camas até na cozinha, nas estrebarias e na cave. O aproveitamento de espaço foi de tal ordem que os meus três filhos dormiam com a criadagem no sótão. Eu próprio disponibilizei o meu quarto e dormi com minha mulher sobre os bancos frente à lareira. Como alguns disseram, não repeli o casal por ser de aparência miserável. A minha estalagem, como já deve ter reparado, não é procurada pelos ricos, e eu nunca deixai ir nenhum futuro hóspede embora desde houvesse lugares. A minha função é da um leito para dormir e lugar à mesa para comer um pedaço de pão, mas quando a estalagem está cheio de nem um ovo, eu não posso fazer de mim mesmo colchão e mesa.
 
         E, já que pretende saber tudo, digo-lhe que fui eu próprio a indicar ao infeliz casal a gruta onde poderia pernoitar e onde nasceu aquele menino que deu tanto que falar… Sabe, o ancião que acompanhava a jovem ficou muito reconhecido e não parava de me agradecer… Mas as gentes não sabem ou não se recordam e, como estão sempre a pensar o pior de cada um, passaram a dizer mal de mim. É assim que vós, escrevinhadores de papiros, me fazeis passar por homem sem coração e sem piedade, pelos séculos dos séculos. Na verdade, eu fui naquela hora um estalajadeiro de pobre hospedaria que não tinha lugar nem para um gato. Mas digo-lhe mais, aquela gruta só aparentemente solitária, pois na vizinhança havia pastores e suas famílias, que alojava apenas dois inocentes animais, era mais digna de acolher uma criança do que a minha estalagem, naqueles dias atafulhada de gentalha bêbeda, ruidosa e ordinária.».
 
            Foi assim que Lucas, o evangelista, conheceu parte da verdade dos factos. Porém, não escreveu isto no seu Evangelho, talvez porque não tinha como confrontar com outra fonte o que lhe narrou o estalajadeiro… É sabido que Lucas era muito escrupuloso…
 
Fim
 
8 de dezembro de 2014

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Convento de Santa Clara


Convento de Santa Clara

       O Convento de Santa Clara de freiras clarissas, segunda Ordem criada por S.Francisco de Assis, foi fundada em 1452, em terrenos situados na antiga Rua de Alconchel e habitações desocupadas que haviam pertencido aos paços dos Falcões. Sob a protecção do bispo de Évora, D.Vasco Perdigão, a comunidade de freiras tomou posse da mansão religiosa em 1459.

            A aprovação da Santa Sé e a consagração da igreja só vieram a acontecer em 1464, através dos bons ofícios do prelado D. Jorge da Costa (célebre Cardeal Alpedrinha). Convento assistido pela grande nobreza do Reino e região, serviu de refúgio à princesa D.Joana, desventurada herdeira de Henrique IV de Castela, (dita a «excelente senhora»),  escorraçada de Espanha, bem como a uma irmã de D.Sancho Manuel, conde de Vila Flor, a abadessa D.Brites de Almeida e D.Maria Manuel, também abadessa oriunda da grande nobreza, que se tornou conhecida por ter abandonado um farto e rico morgado para viver em   santa humildade na clausura. 

            A igreja que hoje visitamos é de reconstrução do primitivo templo e data dos finais do século XVI, tendo-se perdido não se sabe como (?) uma grande composição plástica, encomendada pelo bispo fundador ao pintor Álvaro Gonçalves. Em 1592, o comunidade religiosa encomendou ao artista eborense Francisco João, para colocar na capela-mor, um grande painel sobre a vida de Santa Clara, que acabou por ser retirado durante as obras de restauro que no século XVIII (1744) se efectuaram no templo e, pensamos, ainda deve existir

            Templo do século XVI, obra dos finais do barroco, foi concebido segundo a regra clarissa determinada pelo Concilio de Trento. Templo de uma só nave com abóbada então completamente de composições de pintura a fresco, sobre a história mariana e biografia da padroeira. A igreja apresentava, não há muito tempo as paredes forradas de azulejos coloridos, ditos de tapete, e algumas telas de pintura guarnecidas com entalhes dourados de grande efeito ornamental.



O claustro de proporções harmoniosas, é considerado por especialistas um belo exemplar da arquitectura renascentista da região. Datado do reinado de D. João III, apresenta arcos redondos, colunas toscanas e tectos com  chaves de pedra manuelinas. Nas platibandas e nas torres do edifício apresentam-se bandeiras de grelhas de tijolo, de gracioso efeito ornamental.

            O convento sofreu alguns danos graves com o terramoto de 1755 e, durante as invasões napoleónicas, foi saqueado pelo exército inimigo.

            Para além de ser considerado um dos mais ricos Conventos de Évora, Santa Clara acumula histórias notáveis. A sua igreja, pobre sombra do que brilhou, foi considerada pelos especialistas, no estilo e no tempo, uma das mais belas da Europoa, e as histórias de madres adadessas falecidas em «cheiro de santidade» perdem-se na memória… Como por exemplo a abadessa de 1535 cujo corpo, rezam as crónicas, muitos anos após repousar em sepultura, surgiu depois incorrupto, com o suplemento de se apresentar perfumado… como remalhete de flores !

            No inicio do século XX, o Convento de Santa Clara foi o derradeiro estabelecimento religioso a encerrar as suas portas, com a morte da sua última madre clarissa que era, também, a última freira de hábito na cidade, D. Maria Ludovina do Carmo (havia professado em 1833). Aconteceu isto em 9 de Maio de 1903, embora já em 1900 houvesse sido ordenado pelas autoridades o primeiro inventário dos bens do Convento.

            Esteve todo o edifício alguns anos abandonado, tendo sido ocupado arbitrariamente por famílias sem abrigo. Entrado num estado de ruína confrangedor, veio a ser encerrado pelas autoridades. Durante a 1ª Republica foi entregue ao Ministério da Guerra que aí instalou, de 1911 a 1936, o Regimento de Infantaria nº.16. Todavia, os militares foram paulatinamente martirizando o Convento, com adaptações para as sua conveniências, sujeitando-o a acomodações que lhe provocaram danos irreparáveis. Finalmente, abandonaram o Convento, devolvendo-o ao Estado e, involuntariamente, à ruína. Anos depois, foi restaurado e entregue ao Ministério da Educação Nacional (1951), instalando-se aí a Escola Industrial e Comercial de Évora. Actualmente, a Igreja que se encontra devoluta, está afecta à Diocese de Évora, e o Convento propriamente dito, alberga a escola «EB2/3 DE Santa Clara».

            Santa Clara e o plano da sua igreja, conserva a curiosidade de apresentar encaixado na fachada lateral do Paço dos Lobos da Gama (sobre a Travessa da Molheira) um falso passadiço…

            O Convento de Santa Clara, que se encontra no espaço urbano da denominada «cerca nova», está situado entre a Praça de Giraldo e a Porta de Alconchel e, podemos dizer, que se recorta como quarteirão independente no Freguesia de Santo Antão.





            O chão, as paredes, os tectos, as cimalhas, o claustro e a igreja, com o correr do tempo que ali se passou e as vidas recatadas das suas madres, parecem hoje de pouca valia… De facto, só com a imaginação podemos ouvir, confusas e indistintas, as vozes e os ruídos conventuais donde emergiram doces maravilhosos. As freiras que professaram e morreram em Santa Clara foram muito mais do que aquelas que os registos dão notícia, e houve mesmo casos paradigmáticos de longevidade, como soror Maria Borges, falecida com 104 anos. Convento pela nobreza muito apetecido para professar, até ele chegaram os requintes da doçaria das casas nobres, pelo que se distinguiu nos mimos doces, de que é exemplo a obra publicada (1988) com o título «Livro de Receitas de Doces e Cozinhados Vários d’Este Convento de Santa Clara d’Évora, 1729», atribuída a Soror Maria Leocádia de Monte do Carmo.



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Nota: Texto base retirado da obra MONOGRAFIA DA FREGUESIA DE SANTO ANTÃO – MEMÓRIA DE CONVENTOS E MOSTEIROS e da autoria do Dr. Joaquim Palminha Silva

As fotos são de iniciativa da Direção da Associação de Ant Alunos EICE.

OUTº 2013

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Janeiro

Janeiro
©Joaquim Palminha Silva

Desde muito novo que me senti atraído pelas gentes do campo… Filho da cidade, digo isto sem sentido de menoscabo ou aleivosa pilhéria. Na verdade, os ditos populares, as colecções de adágios e máximas que ouvi de viva voz em Mourão, marcaram de forma sentenciosa toda a minha vida, quando a essa vila ia passar as férias grandes, antes da desgraça económica familiar me ter empurrado para o trabalho precoce, aos 14 anos…

O meu contacto com o mundo rural transtagano, tornou-se quase permanente, recusando eu desde então os “camponeses” políticos de fresca data, os contabilistas e burocratas oportunistas da “reforma agrária”, filhos-família progressistas, politicamente impotentes e fisicamente cobardes, que ainda hoje se passeiam por Évora, de “esquerda “ ao ombro… como se “isso” fosse uma mala da moda…

Previsões de tempo, sentenças de vida, valem para mim mais do que horóscopos de “centro comercial”, além de me desapertarem os intestinos de toda a trampa “intelectual” da moda…

«Diz-me com quem andas, dir-te-ei as manhas que tens!» …

Colhi, pois, das recordações e dos calendários velhos estas sabedorias para Janeiro, que vos ofereço como ramo de violetas:

- Água de Janeiro, todo o ano tem concerto.
- A pescada de Janeiro, vale carneiro.
- Ao luar de Janeiro de conta dinheiro.
- Bons dias em Janeiro, enganam o homem em Fevereiro.
- Coelho de Janeiro, é cavalheiro.
- De Janeiro e Janeiro, o dinheiro é do banqueiro.
- Em Janeiro 7 capelos e um sobreiro.
- Faz teu filho herdeiro onde a neve pegar em Janeiro.
- Janeiro frio e molhado, enche a tulha e farta o gado.
- Janeiro quente, trás o diabo no ventre.
- Obreiro de Janeiro, pão de comerá, mas obra te fará.
- Primeiro dia de Janeiro, primeiro dia de Verão.
- Seda em Janeiro, fantasia ou pouco dinheiro.
- Lua de Janeiro e amor o primeiro.
- Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

Tudo isto é infantil? – É verdade!

Mas para que sair da infância, se pela boca dos meninos (e dos velhos) se conhece a sabedoria do mundo, tão antiga como a Sé de Braga!

domingo, 30 de dezembro de 2012

Quem acredita na Astrologia?

Quem acredita na Astrologia?
©Joaquim Palminha Silva

Conheço pessoas (homens e mulheres) com alguma formação cultural acima da média que sendo “convictamente” não crentes ou indiferentes às religiões (ou assim supondo), em particular a Católica Apostólica e Romana, que se debruçam piamente sobre a Astrologiae com respeitosa reverência a ela se entregam, julgando viver algo parecido com a ! Mais insólito: - Dedicam-lhe tempo, gastam dinheiro em publicações da“especialidade”, chegam a frequentar o “consultório” de astrólogos da moda (Lisboa), onde esperam com ansiedade o “especialista” que, com base na situação dos astros no mês e hora do nascimento, lhe fazem o prognóstico sobre a sua vida para o ano que começa.
           
Em 1956, o filósofo e musicólogo alemão Theodor W. Adorno (1903-1969), fundador da «escola de Frankfurt» com Max Hokheimer, publicou uma obra curiosa e bastante útil, esclarecedora sobre Astrologia, com o título sugestivo e hoje mais do que actual: Estrelas por Medida.
           
Desmontar a manipulação de “almas” a que se presta o uso da Astrologia é trabalho antipático que, estou em crer, não irá beneficiar do entusiasmo público. Porém, nos tempos actuais em que novamente campeia a barbárie cultural, o nivelamento “democrático” cultural (por baixo!), é obra de utilidade pública arriscar o desagrado das maiorias.
           
Segundo Adorno, a base cultural da Astrologia, e também o motivo do seu sucesso, é a sua total ausência de relação entre duas ordens de conhecimento: - O conhecimento Astronómico, propriamente dito, que estuda as leis e os movimentos dos corpos celestes, e o conhecimento da vida humana, isto é, a situação social, económica, cultural, religiosa, etc., que determina o caminho percorrido e a percorrer pelas sociedades e, inseridos no seu seio, pelos indivíduos singulares.
           
A “relação” que a Astrologia estabelece entre estas duas ordens de conhecimento, pretende proporcionar uma aparência de justificação entre elas, camuflando-se, assim, sob a forma de conhecimento misterioso, insinuando que este último mergulha no mais remoto passado… e vai para além da ciência.
           
Na realidade, a Astrologia não é capaz de justificar de forma alguma as conexões que estabelece entre o movimento dos astros e o comportamento da sociedade humana. Por esta razão, para Adorno, a Astrologia é falsa e, mais ainda, psicótica, dado que reforça o sentimento da fatalidade e de dependência dos seres humanos, paralisando-lhes a vontade de mudar as condições materiais e culturais da sociedade, além de relegar todas as preocupações humanas para o plano privado, promovendo assim o individualismo, o egoísmo!
           
Em conclusão, refere Adorno que «a astrologia deve ser considerada o modelo, a escala reduzida, de uma exploração social, exercida a uma escala muito mais vasta, da predisposição para a paranoia».
           
Na realidade, o Homem nunca consegue ver com exactidão o que o futuro lhe reserva, e até a própria ciência, embora capaz de prever o movimento geral dos fenómenos, nada pode garantir sobre o futuro de uma pessoa singular.
           
A necessidade de alguma medida de previsão, ainda que aproximativa e incerta, é um irresistível desejo inerente à condição humana. A esta necessidade responde a Astrologia desde há muitos séculos, embora hoje felizmente não pretenda fazer-se passar por ciência.
           
Adorno tem toda a razão, todavia“ignorou” os motivos humanos que determinam o sucesso da Astrologia. Se estivesse imbuído do “espírito” da Antropologia, talvez não ajuizasse de forma tão radical. Na actualidade, e de uma forma geral, os conselhos dos astrólogos com toda a sua panóplia, signos do Zodíaco, etc., nada têm de maligno nem perverso, pois inspiram-se, de resto, na sabedoria popular que apenas visa dar um pouco de coragem e firmeza na acção a levar a cabo, bem como a reflectir melhor acerca de situações difíceis da vida particular de cada um. Poderemos dizer, sem risco de exagerar, que a Astrologia assenta na unidade primordial (às vezes esquecida pelos eruditos) entre o Homem e a Natureza.
           
Enfim, munidos de um razoável adagiário popular, de um cuidado livro com recolha de ditados populares portugueses(mesmo quando alguns se contradizem!), poderemos poupar o nosso dinheiro e evitar de ouvir as patranhas, mais ou menos engenhosas, do astrólogo do bairro!
           
Lá diz o rifoneiro do povo: «Feliz é quem só quer o que pode, e só faz o que deve!».

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

DESTRUIÇÕES

 
Destruições!

©Joaquim Palminha Silva

 


Pormenores do chafariz seiscentista (e espaço vizinho), bem como “troço” do Aqueduto da Água de Prata (?) no largo face à Porta de Alconchel, outrora abastecedor de água para o
... Convento dos Remédios (desde 1619), tudo demolido escusadamente em 1973, por “imperativos” de urbanização municipal (?). Durante séculos, e antes da construção da igreja do colégio salesiano, este era o panorama que se oferecia ao habitante da cidade (fotografia de Marcolino Silva, década de 60 do século XX, Arquivo Fotográfico Municipal).

Entre as inumeráveis pobrezas que hoje entristecem e curvam a existência dos poucos habitantes da cidade, a pobreza de esperança não é a menor das calamidades… Dado que é superada pela quantidade de pessoas disformes de espírito, supérfluos incuráveis, que paulatinamente se espalharam pelo Poder autárquico “democrático”, bem como pelas sucursais do Poder central, fundações (privadas) disto e daquilo e associações onde se fabrica a solidariedade social, com gestão bem paga e ajudas de custo! Enfim, a cidade encheu-se, durante os últimos dois séculos de mandantes diplomados, quase de pais para filhos em linha recta, que repetem em cada vinte palavras que são “pessoas de bem”…e não se enxergam, os tontos!

Os mortos antigos (e não só os históricos), o granito de muralhas e casario, muitas vezes secular e milenar, com vergonha e angústia, contemplam todos os dias os mandantes vivos da cidade, que parasitam e adulterarem o património a seu favor, incapazes de construírem algo semelhante ao que eles, defuntos e respectivo passado histórico, ergueram no seu tempo.

Para os conscientes que sofrem estes mandantes, reprimir o vómito e a indignação torna-se cada vez mais difícil, enquanto assistimos impotentes ao alastrar da ignorância pretensiosa e da desfaçatez, às destruições e desvirtuamentos do património, a par com a arrogância pública, a impunidade, a conivência entusiasta ou silêncio pianinho de alguma imprensa e rádios locais que, em vez de servirem a cidadania denunciando as “frinchas” e os cangalhos desconjuntados, são arautos louvaminheiros das “tribos mandantes”, escrevendo e imprimindo péssima prosa, emplastrada de banalidades.


Enfim, pelo menos desde há um século, os mandantes de Évora, que falam em património recuperado, dividem-se em dois partidos que nada têm que ver com a política, mas sim com a idiotia e o cabotinismo: 1) o partido dos que querem modernizar o “tecido urbano”, custe o custar, e se explicaram paulatinamente através do derrube de caixas de água do Aqueduto, do edifício “manuelino” dos Paços do Concelho na Praça de Giraldo, ou da destruição de telheiro quinhentista, lateral a uma das entradas Palácio dos condes de Basto, com a inconsequente construção de uma “pala” em betão, etc.; 2) o partido dos que, embora acanhados, lá fazem alguma coisa aqui, restauram ali, conseguem “verbas” para acudir acolá, mesmo ouvindo o realejo do “progresso”, ainda alcançam ser amantes do património “acima de tudo”, revirando os olhos em espasmos (ai!) teatrais sempre que se fala na UNESCO!

Em homenagem aos 25 anos de cidade património da Humanidade, aqui deixamos pró-memória umas fotos de um conjunto escusadamente destruído, em vez de recuperado e devidamente enquadrado. Saiba-se que os padres salesianos do colégio à Porta de Alconchel, nada tiveram que ver com essa destruição que, de resto, também os surpreendeu na época.

Por isso, quando uma Fundação, ignorando a Cidade, despende um brilho duro e uma feroz arrogância, destruindo a seu prazer património de séculos e construindo uma pala em betão, é útil que se saiba que esta “intelectualidade da tanga”, estes mandantes de cultura periclitante tem tradição e tem história em Évora!


Estes mandantes, cuja vida da inteligência é pedra no fundo de um poço, podem ser desalojados do Poder, democraticamente, saiba-se!


 
 

Estrada de Lisboa logo após a Porta de Alconchel, chafariz seiscentista e casario, complexo hoje desaparecido, que viu surgir (à direita na foto) o espaço do colégio salesiano (fotografia dos anos 60, da autoria de Marcolino Silva, Arquivo Fotográfico Municipal).



Dois pormenores do mesmo espaço (na mesma data).
 
Texto do nosso amigo Dr. Palminha Silva, publicado em "MAIS ÉVORA"