terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Alcaide!


O Alcaide!
(história de proveito e exemplo)

 

Joaquim Palminha Silva

(um conto por semana)


           Era uma vez Évora, na primeira metade do século XVII… Como nas histórias antigas de «proveito e exemplo», que hoje tanto nos faltam…

           Como seria a cidade nesta época? Sabemos que era populoso centro, «urbe» invejosa a engalfinhar-se com a soberba Lisboa, repleta de vaidade por ter a sua própria Universidade e, além do mais, ter sido a primeira a dar o “grito do Ipiranga!”, em 1637… Ao mesmo tempo que se orgulhava de possuir, na Porta da Moura, pelo menos desde 1557, o palácio dos poderosos duques de Bragança que, já nessa época, sofria grandes obras de transformação e acrescentamento, sobressaindo o templo, na ilharga norte, de que nos resta hoje, como pormenor curioso, o portal figurativo, menos tosco que a «Porta do Nó», no paço de Vila Viçosa…


           Enfim, toda a casta de gente vinha aqui parar: - Padres jesuítas professores na Universidade, frades de várias Ordens, fâmulos de bispos, universitários irrequietos e, às vezes, já passando as marcas, violentos por uma pá velha, soldadesca e lacaios de fidalgos, amigas e “primas” de espadachins dos Terços (corpos de Infantaria nos séculos XVI e XVII), fanfarrões, gente de variadíssimos mesteres, além vivandeiras do Exército, bem como pobreza e indigência piramidal!

           Foi, pois, num ambiente de desarranjo e decadência de capa rota e espada romba, que se tornou famoso o Alcaide eborense, Luís Roiz Matoso, de quem se contam muitas histórias… Eis, pois, em meu entender, a mais pitoresca…


                Aclamado D. João IV, nem por isso Évora sossegou mais.

           Se Elvas era o centro coordenador das operações militares de defesa do Reino, Évora, por seu turno, era o arsenal, o centro administrativo, o armazém de víveres, o centro de instrução militar, a oficina de reparações de armas de fogo (ligeiras e pesadas) e, é claro, sede de grande número de casas nobres e local de estadia, mais ou menos prolongada, de Sua Majestade, o Rei D. João IV.

           Durante muito tempo a «urbe» viu ruas e vielas povoadas de padres jesuítas que pregavam Jesus Cristo e o patriotismo, a malha urbana cheia de soldadesca e artífices, mulheres de vida airada, voluntários e mercenários, destacamentos militares dos aliados (franceses, holandeses e flamengos). E a ordem pública, o cumprimento da Lei no meio desta fauna heterogénea, não nos dirão? – Ora adeus! Para toda essa “Babilónia” Évora tinha um Alcaide… Diga-se, tinha um paradigmático Alcaide, de que já se ouviu falar: - Luís Roiz Matoso!

           O certo é que a cidade albergava gente insofrida, pessoas de arreganho que brigavam por tudo e nada. Multiplicavam-se as desordens, bem como toda a escala de violências e assassinatos. Houve, por conseguinte, que adoptar disposições severas, por ordem de El-Rei.

           Parece que D. João IV, alojado no que fora o Paço dos Condes de Basto, mandou desentaipar uma escada secreta que dava para os fossos do palácio, de forma que a “horas mortas”, depois de tocar o sino de correr, pendurado nos açougues municipais (então instalados no templo romano), de espada na bainha e embuçado na rica capa, pudesse sair à cidade a fiscalizar por sua conta e risco como “iam as coisas”… Parece que seria esse o objectivo dos passeios nocturnos e secretos de D. João IV pelas ruas e travessas da «urbe» … Pelo menos os registos querem que acreditemos nisso…

           Uma noite, o Rei encontrou o meirinho (magistrado judicial, oficial de diligências) Lopo Tavares e sua gente de ronda, numa viela do bairro de S. Mamede. Trocaram-se as palavras impostas pela situação e, às tantas, o meirinho pediu ao embuçado que se identificasse e descobrisse o rosto. O embuçado, altivo até mais não, recusou. Vai daí, o meirinho deu-lhe voz de prisão! Porém, em surdina, D. João IV pediu-lhe que mandasse afastar os homens da ronda, insinuando-lhe aos ouvidos «um caso discreto de alcova» (verdade ou mentira?), ao mesmo tempo que deixava escorregar para as mãos de Lopo Tavares uma bolsa de moedas doiradas… E seguiu o caminho em paz…

           Quanto tempo poderia o Rei continuar esta cabra-cega com as autoridades locais? Já iremos ver…

           Nessa mesma noite, talvez de regresso ao Paço dos Condes de Basto, quando passava ao arco de D. Isabel, o Rei deu de caras com Luís Roiz Matoso. Repetiu-se o mesmo teatro: - O embuçado recusou identificar-se e, atrevido, ofereceu uma bolsa de moedas, para que o Alcaide o deixasse seguir caminho. No entanto, desta vez, a iniciativa tornou mais crítica a situação… Apesar de estar só, o surpreendido Alcaide deu voz de prisão ao embuçado! Este último ameaçou e, súbito, arrancou a espada da bainha! O Alcaide saltou para o lado, protegendo-se da estocada que, de resto, denunciava espadachim de pouca habilidade. Soltou a capa e empunhou por sua vez a espada e, com temerário arrojo e destreza, sem o ferir, desarmou o embuçado…

           O Rei entendeu que lhe cumpria saber até onde poderia ir o ânimo de Luís Roiz Matoso e, assim, deixou-se prender, mas sempre escondendo o rosto. O Alcaide pegou no braço do prevaricador com mão de ferro, e os dois romperam marcha até à Cadeia, na Praça Grande, ao lado dos Paços do Concelho.

           À porta da Cadeia, D. João IV apercebeu-se que era inútil contar com a indulgência do Alcaide, constatando que já bastava de testar o exercício do dever por este oficial de Justiça. Então, num gesto decidido, tirou o chapeirão emplumado, descobriu o rosto e atirou com a capa para trás das costas, dando-se finalmente a conhecer!

           O Alcaide, homem habituado a ver toda a casta de aberrações numa cidade tão desassossegada, com o ar mais calmo deste mundo, após fazer ao Monarca a vénia da praxe de joelho em terra, limitou-se a dizer: «Cumpri as ordens de Vossa Majestade»!

            No dia seguinte, o meirinho e o Alcaide foram chamados ao Paço do Conde de Basto, à presença de El-Rei! – Lopo Tavares, o meirinho que tanto apeteceu o saco de moedas, foi demitido de imediato, e apontado aos presentes como um mau servidor da causa de El-Rei!         Luís Roiz Matoso, o Alcaide, viu e ouviu D. João IV fazer-lhe o elogio público, confirmando-lhe a posse do cargo…

           Como nos antigos contos de «proveito e exemplo», sempre digo aos leitores que, com o escudo de honra destes portugueses, a cidade de Évora era então «urbe» segura de Portugal, onde havia homens de rija têmpera, que aborreciam a subserviência e a corrupção.

Bibliografia:
- História do Portugal Restaurado, Francisco Xavier de Meneses (3º conde da Ericeira), vol. I, Lisboa, 1679.
- Estudos Eborenses, Gabriel Pereira, 1º vol., 2ª edição, Évora, 1947,
- Palácios Reais de Évora, Túlio Espanca, Évora, 1946.
- Da Toponímia de Évora, século XV, Afonso de Carvalho, vol., II, Lisboa, 2007.
- Monografia da Freguesia de Santo Antão, Joaquim Palminha Silva, edição da Junta de Freguesia de Santo Antão, Évora, 2009.

 

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