quarta-feira, 12 de junho de 2013

ERA UMA VEZ LUIS DE CAMÕES ......


©Joaquim Palminha Silva

 

Era uma vez Luís de Camões…

(10 de Junho de 2013)

  

            Em torno da vida de Luís Vaz de Camões, uma vez assente a cadeia cronológica que os investigadores académicos sempre gostam de mencionar, apuramos que pouco se sabe de concreto sobre a vida efectivamente real, vivida pelo poeta.

            Na verdade, à volta de certas existências, de “feitio” acima do comum, mas de nascimento “plebeu”, adensa-se um misterioso nevoeiro. Um mais que outro, historiadores e críticos literários, mantém equívocos biográficos sobre o épico, contribuindo assim ora para a confusão ora para a ficção sobre figuras, entretanto consideradas “grandes”, uma vez transfiguradas em personagens tutelares da História de Portugal. Há séculos que Luís de Camões faz parte desta galeria de “quadros históricos”…

            Luís de Camões foi homem pobre. Nunca teve o privilégio de ser recebido em audiência real, como chegou a pretender Almeida Garrett (1799-1854), que o imaginou a ler Os Lusíadas ao rei D. Sebastião. De comprovado, sabe-se que para além de ser soldado raso da tropa ultramarina, viveu a sua existência no seio da “meia-tigela” nacional. Isto é, viveu à margem da fidalguia, mesmo a mais falida, misturado com turbamulta, se bem que admirado (à distância, diga-se!) por alguma nobreza e raros amigos de boémia e aventura. Enfim, como se tornou grande vulto depois de falecido num mísero abandono, sobretudo com a perda da independência e a ocupação castelhana (1580-1640), com Os Lusíadas travestidos em “bíblia” da Pátria, Luís de Camões acabou por se tornar o morto mais importante da nossa História, naturalmente para alimento “espiritual” do vivo orgulho nacional e mimo para a nossa memória cultural, sempre tão carenciados…

            O Poder político usou-o paulatinamente para decorar os enfaixes da sua demagogia… Os homens e mulheres da Restauração (século XVII) usaram a sua vida e obra com alguma legitimidade, pois tratava-se então de levantar os ânimos à população do País, em guerra aberta pela manutenção da independência nacional, coisa estimada pelo poeta. Porém, em 1880, a propaganda republicana fez Luís de Camões seu “militante”, durante as festividades antimonárquicas que organizaram para comemorar o 3º centenário da sua morte. O regime da ditadura salazarista pretendeu “filiar” Luís de Camões no partido único (a “União Nacional”), abusando do uso do termo «lusíadas» e vária simbologia de recorte “camoniano”, para militarizar crianças e jovens, através de organização específica (“Mocidade Portuguesa”). A paranoia radical (e ignorante) das hostes esquerdistas e pequeno-burguesas, logo após 25 de Abril de 1974, chegou ao desplante de pretender “sanear” Luís de Camões e Os Lusíadas da memória histórico-cultural da Nação, a pretexto de que a obra do épico fazia a apologia da conquista imperialista e, portanto, colonialista, transformando assim o “pobre” poeta num acabado “militante” da extrema-direita!

            Em poucas palavras, tudo aconteceu a Luís de Camões… depois que morreu!

            Por último, o Poder de Estado organizou a “charada” de transformar o dia do seu falecimento (10 de Junho!), acontecido (1580) no abandono e no sofrimento, numa cerimónia de entrega de “chapinhas condecorativas” disto e daquilo, como dizia mestre Gil Vicente, a «Todo o Mundo e a Ninguém»!

            Era uma vez Luís de Camões… - O verdadeiro!

            Surgiu este no ano de 1976, inesperadamente, através de um códice da «divisão de manuscritos» da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América. Manuscrito com 196 folhas numeradas com a classificação de P-129 e o seguinte título : «ISTORIAS E DITOS GALANTES QUE SUCEDERAÕ E SE DISSERAÕ NO PAÇO».

            O investigador que descobriu o texto, e o trabalhou para edição (Coimbra, 1980), o norte-americano Christopher C. Lund, embora alguns se inclinem para a autoria do manuscrito pertencer a Ruy Lourenço de Távora, levanta sérias e bem fundadas objecções a esta hipótese… Assim, dá-o como redigido por autor anónimo, contemporâneo (século XVI) portanto das «istorias» narradas.

            Se algum investigador dos nossos dias se mortificou a procurar Luis de Camões, o verdadeiro, e quis adaptar o épico idolatrado a pobre personagem da época, frequentador da taberna do «Mal Cozinhado» (no Bairro Alto, Lisboa), sem que se prejudique a aturada paciência dos eruditos, antes pelo contrário, aqui tem um Luís de Camões na sua mocidade ardente e jocosa, metido a fazer “versos” já com o propósito de criticar o desconcerto do mundo, nalguns casos debaixo de alegres composições.
 

            Era, pois, uma vez Luís de Camões…

            Luís de Camões era galanteador, pelo que também lhe acontecia poesia nesta área do humano viver. Eis, para provar isto, uma sua história pitoresca, transcrita do referido manuscrito do século XVI:

            «Indo um dia Luís de Camões passeando por uma rua de Lisboa, viu a uma janela duas Damas jogando as cartas. Parou ele defronte delas e da rua lhe esteve dizendo algumas galanterias, de que elas não fizeram caso, antes mostrando que nem davam fé de quem as dizia, e foram jogando por diante. Vendo ele que aquele seu não dar fé era mais dissimulação do que inadvertência, chegou-se mais ao pé da janela e lhe disse:

                                    Tenha esse jogo já fim

                                   Senhoras que não jogueis mais

                                   Porque entendo que jogais

                                   Para fazer jogo de mim.

 

                                   Se é certo este meu juízo

                                   Não é coisa justa logo

                                   Que estejais fazendo jogo

                                   De quem vos ama de sizo.

 

            Elas puseram os olhos nele, tornando-os no mesmo instante a recolher, mordendo os beiços, disfarçando o riso. Uma que de ambas era mais travessa deixou cair uma carta na rua. Levantou-as logo o Camões, e viu que era um três de paus, e entendeu que aquilo era o mesmo que lhe dizer que se fosse enforcar. Olhando para ela disse:

 

                                   Por acabar dias maus

                                   Da triste vida que passo

                                   Mandai Senhora o baraço

                                   Que já cá tenho três paus.

 

            A isto não puderam elas dissimular o riso, mas mortas dele se recolheram para dentro, e Camões deixando o posto continuou seu passeio.».

 

            Como se pode verificar, no século XVI português podia existir um homem de talento fora dos beirais do Paço, dos palácios dos nobres e da vigilância do Tribunal do Santo Ofício que, de gorro de plumas na mão, como o imaginou o pintor José Malhoa, era alegre de seu natural apesar das agruras da vida… Esse homem de génio foi Luís de Camões, cujo verdadeiro romance biográfico se perdeu na escuridão do tempo que foi passando, mas que este velho manuscrito nos recorda tal e qual, e que eu nesta data tenho a honra de recordar, com toda a humildade possível …

 

            Tenho a honra de vos lembrar Luís de Camões, neste dia que dizem ser especialmente consagrado à Pátria, ao amor dos filhos à terra mãe e sua cultura milenária… Este homem que uns dizem desabusado, pobre soldado raso que regressou uma vez de Ceuta a «manqueja[r] de um olho»,  como ele mesmo dizia, que depois foi soldado na Índia, sem sequer ter ganho, ao cabo de muitos anos, o suficiente para pagar a viagem de retorno à Pátria… Tenho a honra de vos recordar este homem que, segundo um dos seus primeiros biógrafos, quando expirou nem um lençol tinha para lhe servir de mortalha ao corpo, mas que estava destinado, com o seu poema épico Os Lusíadas, a elevar à suprema esperança a fé na Pátria e no povo lusíada, apesar de todas as tempestades e medos tenebrosos da História, e a ressoar por todos nós até ao horizonte da dignidade humana, e apesar da dura crítica, a capacidade de nos erguer de novo…

 

                                   «Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho

                             Destemperada e a voz enrouquecida,

                             E não do canto, mas de ver que venho

                             Cantar a gente surda e endurecida.

                             O favor com que mais se acende o engenho

                             Não no dá a pátria, não, que está metida

                             No gosto da cobiça e na rudeza

                             Duma austera, apagada e vil tristeza.».

                                                                           (Os Lusíadas, X, 145)

2 comentários:

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Joao Serrano disse...

ANÓNIMOS - NÂO.
Por favor deem a cara e assinem o nome