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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

E AGORA, PORTUGAL ?...

E agora, Portugal?...
©Joaquim Palminha Silva

A terra portuguesa tem o seu destino preso, neste momento, à sorte de uma batalha. A batalha resume-se à dívida externa e aos altos juros a pagar num curto prazo… Isto é, travamos uma batalha de resistência dolorosa, com os dias contados!

Amobilização autoritária dos corpos, quero dizer, a colheita de uma parte crescente (em aumento imparável) da riqueza produzida pela escassa multidão que ainda tem trabalha, não derivou da mobilização dos espíritos para a suposta batalha. Antes pelo contrário, apenas se avisou os portugueses, do alto do Poder de Estado, que tinham de despender parte dos seus rendimentos, enquanto forças tivessem para o conseguir, em favor do Estado, de forma a quer este pague ao agiota estrangeiro, o melhor que puder e souber o capital em dívida…

O drama desta batalha, na sua fase actual, é que os detentores actuais do Poder de Estado estão sempre corrigir as contas, nunca mais alcançam um número exacto de milhões de euros a recolher junto do contribuinte. O grande drama, que é uma consequência directa desta batalha desigual, é que face ao neo-pangermanismo anti-europeu, o Estado português apresenta-se não só fracamente domesticado, como fragilizado internamente, dada a ausência de um apoio colectivo que venha a amparar e a suportar alguma pressão suplementar, defensiva, sobre a crueldade e agiotagem estrangeira…

Exceptuando os naturalmente obrigados a apoiar tudo e mais alguma coisa, na verdade ninguém com consciência da resistência suicidária que se está a passar, pode concordar com o desempenho, a estratégia e os métodos de combate à crise por parte dos actuais detentores do Poder de Estado.

Franco-atiradoresisolados, estes cavalheiros e senhoras que servem o Poder de Estado em Portugal, parecem que foram pagos pelo agiota estrangeiro para falharem a pontaria consecutivamente… De facto, nunca mais acertam as contas e, semana sim, semana não, mês sim, mês não, lá nos vêm maçar com o cumprimento da dolorosa comunicação à Nação de mais um deslize, mais um lapso, mais uma“derrapagem” nestas e naquelas contas…

A terra portuguesa tem o seu destino preso, neste momento, à sorte de uma“batalha”, dissemos no princípio da crónica. Todavia, esta mesma batalha é antes de mais um combate desesperado pela sobrevivência material de uma Nação que se encontra extremamente fragilizada, doente! Isto é, pela sua sobrevivência económica, que é, naturalmente, a luta pela possibilidade de os portugueses continuarem a ser portugueses em Portugal, e não locatários de uma habitação penhorada fixa a um terreno que acabou de ser posto em hasta pública!

Mas ai de nós, se além de não possuirmos os milhões necessários para reconquistar Portugal para Portugal, andamos a aturar uns locatários do Poder de Estado que se consumem na subserviência ao estrangeiro, e na água chilra de uma política de emboscadas à Nação, às instituições cívicas, ao mundo do trabalho, sem inteligência nem nobreza.

Falemos claro e abertamente: - É urgente arrepiar caminho enquanto é tempo! Desviemos os olhos das misérias e aberrações interesseiras dos partidos (todos eles, no Poder central e no local!), que nos levaram a este desastre, e elevemo-nos para o ressurgimento da Nação, não nos deixemos arrastar para o belicoso (não se tenham dúvidas!) enxurro europeu que aí vem, com o abaixamento do nível político e do espírito solidário!

Já não se trata de mostrar os perigos que a União Europeia representa para uma frágil Nação, sujeita às ambições “imperiais” da Alemanha e seus compinchas… Acabemos com este lapso de miserável subserviência germanófila! É preciso negociar a saída da União Europeia quanto antes!

O“Lázaro português”, para se levantar e caminhar, exige um esforço colectivo permanente, precisa de restaurar forças com o tónico de instituições mais democráticas e transparentes! E os Governos, de uma vez por todas, lá por saem das urnas de voto, não devem julgar que estão autorizados a batalharem a toda a hora contra o Povo do Trabalho, para lhe extorquirem os rendimentos do trabalho em nome dos agiotas estrangeiros!

É preciso que os portugueses de juízo, efectivamente patriotas, acautelem o País contra as surpresas desagradáveis que aí vêm!

REGRESSO ...

Regresso
©Joaquim Palminha Silva

Ao fim de uma ausência de décadas, porque voltamos à terra onde nascemos? Que procuramos, após tantos anos?

A verdade é que só voltamos porque queremos encontrar algo que deixamos para trás. Algo por resolver (?). Desejamos alcançar o que não conseguimos em crianças ou jovens… Voltamos também para ajustar contas com o passado. Julgamos que podemos pedir satisfações ao passado. Mas o passado está tão atrás que não quer saber das nossas exigências e, por conseguinte, continua a afastar-se, a afastar-se…

Porém, a verdade é que voltar à terra é voltar ao passado. E voltar ao passado que não vivemos aqui, a um tempo que não conhecemos, só nos pode proporcionar o encontro com a recordação dos mortos, a revisitação dos espectros, a visão de sombras, avistar gente moída de dor, de frustrações, de invejas, de desamores alinhados na apatia diária. A visão de gente exclusivista que se julga importante, mas que sofre às escondidas não ter saído da terra. Gente que odeia que lhe lembrem que não foi capaz de ousar partir!... E cada um ou uma que retorna à terra, queira ou não, vem alimentar este pequenino ódio artesanal, inofensivo…

Regressar é voltar atrás, mas é preciso têmpera forte para isso, porque os que ficaram não admiram os que regressam, após terem corrido mundo, seja lá o que for esse mundo!

Voltar à terra requer ter coragem de assistir à abertura de feridas entretanto cicatrizadas… Voltar atrás pode ser rasgar veias, descer, algumas vezes, ao Inferno da velha calúnia, do azedume enferrujado que se espreguiça de novo, despertar o despeito que nunca soubemos ver no velho colega de escola, de Liceu, de trabalho. Retornar pode ser uma moenga!

Regressar, é ter a coragem silenciosa de ver a Marianita (não importa o nome) atravessar a rua com o neto pela mão, denunciando os anos através do corpo pesado e, por momentos, quase a reconhecer-nos, desviar o olhar arrependida da curiosidade… - «Foste casar longe, não é verdade!? Disseram-me que a tua mulher é estrangeira… Afinal, vives só!? Não casaste… As pessoas inventam cada coisa!» … E, por momentos, a nossa solidão alegra Marianita… Vá lá saber-se que pequena vingança ela acabou de cumprir!

Regressar é, também, encontrar parte importante do significado da nossa existência, fechando assim o círculo da vida! Nesta ordem de ideias, regressar é beijar a terra onde repousam os nossos antepassados, conhecidos ou desconhecidos. Regressar pode ser terminar onde tudo começou. É dizer a Deus: «Toma-me quando entenderes, estou aqui! Regressei. Estou pronto para a última viagem!».

Regressar, voltar atrás, é tão arriscado que muitos não o fazem e, dizem, houve mesmo quem tenha enlouquecido ao fazê-lo! Seja como for, queremos sempre regressar à terra natal, como gostaríamos, mesmo por breves instantes, repousar no regaço materno… Há em nós um menino, sempre mimado, mesmo com rugas e doenças que escavam a saúde, mas menino que soluça, de memória em memória…

Regressar é voltar ao passado… Mas a um passado velhinho, senil, muitas vezes caquético… Mas também é voltar ao verdadeiro amor, ao primeiro, ao que foi ingénuo e desinteressado! É voltar a sofrer com outra dor, com outra impossibilidade… Desta vez repletos da paciência que a idade ensina. Regressar é enfrentar a solidão face aos ausentes, e sentir a sua infiltração na alma e no corpo, como o salitre nas paredes das casas da cidade… Voltar é assistir à degradação da cidade, ver as feridas que lhe provocaram, e nada poder fazer para travar a sua progressão.

Voltar à terra, é voltar a pensar em todos os caminhos andados e recusados. Regressar é perdoar e pedir perdão, mais do que uma vez, às mesmas pessoas mas com a memória das faltas quase desfeita, cheia de falhas.

Não. Não há nenhuma certeza no regresso. Pensamos… Todavia, nada se realiza para lá do que imaginamos. Regressar é correr o risco de entrar numa aventura sem retorno!

Regressar à terra natal, é reencontrar a única namorada, a verdadeira paixão!

Num instante: - Estamos mortos! Ninguém se preocupa mais connosco, nem nós mesmo somos um corpo e uma alma com preocupações. E no entanto, viver sem amor, viver sem a sua recordação, viver sem regressar à terra, à única namorada, é tão agreste, tão sem sentido como o deserto… Não, pior! O deserto tem sentido…

Regressar é empurrar o esquecimento para fora do nosso ser!

CONSIDERAÇÕES MARITIMAS

Considerações marítimas
©Joaquim Palminha Silva

Os ingleses usam uma palavra especial, o verbo to hand, para significarem a transmissão do património cultural e moral recebido dos tempos passados e legado depois às gerações que vão surgindo. É como quem diz: - Passa de mão em mão, mas não se perde…



De facto, compreende-se melhor esta realidade quando temos filhos, que nos obrigam inelutavelmente a alongar o olhar, a perscrutar o futuro… E se já não temos pais, sentimos então vivamente que somos o elo de uma cadeia sem fim: - Pelos filhos, vem-nos a consciência da responsabilidade do futuro que estamos a assegurar, bem como a têmpera que soubermos dar às almas nascidas de nós; pelos pais mortos vem-nos mais forte a responsabilidade da herança recebida e de cuja guarda nos hão-de ser pedidas contas rigorosas.



O que verdadeiramente caracteriza a acção de comando desta tripulação (CDS-PSD-PS), diria “matulagem” (como que falando de piratas!) da nau Portugal (governo/oposição/governo/oposição) é o seu desprezo pela “herança dos pais”, bem como o não quererem saber do futuro dos filhos! O que caracteriza toda esta gente, face às atribulações da hora tormentosa é que, como ásperos flibusteiros, estão prontos a esfaquearem de frente e pelas costas o seu próprio Povo, de forma a agradarem aos estrangeiros que lhes passaram “carta de corso”, na mira de um eventual saque suplementar da nau Portugal, antes da debandada dos ratos e quando já não forem membros da sua tripulação!
 
 
Os ventos de todos os mares do globo empolaram as velas das nossas caravelas e nenhum povo da Terra, depois do povo romano, cometeu mais espantosas façanhas. Abrimos à civilização ocidental os itinerários marítimos, dominámos nos confins do mundo os despóticos potentados asiáticos. Durante dois séculos estivemos sob o efeito prático do delírio do sublime e do épico!



Grécia e Roma clássicas tiveram de criar pela imaginação a história mitológica dos heróis sobre-humanos. Em Portugal, não precisámos de inventar deuses nem heróis. A nossa mitologia foi uma realidade (sangue, suor e lágrimas!): - Chama-se epopeia dos Descobrimentos! Vasco da Gama é o nosso Ulisses; Afonso de Albuquerque, o nosso Aquiles. O nosso Homero, Luís de Camões! Temos mesmo uma Odisseia, Os Lusíadas!



Dito isto, é preciso que não desviemos os olhos da pilhagem que uns piratas principiaram a executar, da proa à ré, na nau Portugal



Olhemos a Pátria com olhos de ver! – Sabemos que ela é pobre. Pobre, porque os que estiverem no governo da nau viveram mais no arrebatamento da pirataria do que na faina de contribuir para melhorar a vida da colectividade… calafetando a embarcação a tempo e horas!



Apesar do pesado tributo que pagamos pelos erros que não foram nossos, saibamos honrar o nosso legado. - É essencial que se tracem as proporções a que devem obedecer, para serem dignos do passado, do presente e fiáveis face ao futuro, os que o “destino” mandou subirem à nau Portugal, para a pilotarem no meio da tempestade!



Nas actuais circunstâncias, concentrarmo-nos na imobilidade hedionda do egoísmo e da apatia, é trair o passado e hipotecar o futuro, deixando o presente como saque à vista para a chusma de piratas que nos assediam, nacionais e estrangeiros!

Diante desta catastrófica situação, justifica-se, quanto antes, um forte e organizado motim a bordo!
 
 
 
In MAIS ÉVORA
 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Antigos Alunos


EQUIPA DE BASQUETE FEMININA - INDUSTRIA - 1968



Esq. para direita encima:  Fatinha,Lurdes, HIPÓLITO PINTO(massagista),FARIA(?????),Crisália

Em baixo :Alice,Rosalina,Lita e Todinha

Foto cedida por HIPÓLITO PINTO

sexta-feira, 6 de maio de 2011

"O Fauno, O Médico e a Internet" de MANUEL LUIS BÁBARA

O Fauno, O Médico e a Internet


conto mais ou menos verídico

por



Luís Bárbara



Luanda, Janeiro de 2006


O Fauno, o Médico e a Internet


Havia uma cervejaria na torre de menagem de um antigo castelo que encimava uma antiga cidade. A cervejaria era no rés-do-chão da torre que era rematada por ameias. Um pouco por baixo destas, um conjunto de gárgulas serviam de bicas ao terraço da torre. Quis a mão do homem que o conjunto de gárgulas assumisse a forma de Faunos.

Ora um destes Faunos estava vivo e no remanso da tarde, descia do seu poiso e, para espanto da freguesia, sentava-se a uma mesa bebericando a sua cerveja e comendo o seu tremoço.

Não dava palavra. Sentava-se, o criado servia-o, sem nunca ninguém saber explicar como é que tinham adivinhado a primeira cerveja o primeiro pires de tremoço e que isso agora também não vinha a calhar.

Repimpado no cadeirame, coçava pata com pata, e torcia a orelha pontiaguda enquanto olhava, como quem não via o que o rodeava.

Bebia então a fresquinha, grossa caneca que por menos não se tem um Fauno na esplanada.

Bebia, eructava, sonoro, solene e satisfeito arroto, sinal prazenteiro para que outra lhe fosse servida.

Bebia-a então com mais moderação, diria com mais voluptuosidade. Todos nós sabemos que os Faunos são voluptuosos, este não o era menos e mostrava isso enquanto bebericava a segunda. Os olhinhos, a modos que piscos, passavam então pelas madames, retendo-se mais numas que noutras, que àquela hora vinham ver tão extraordinário acontecimento.

Os pés chanfrados do Fauno, como os das cabras, pareciam que exteriorizavam o que ia na alma do ente.

As patas cruzavam uma sobre a outra, roçavam-se um pouco no interior das coxas, e Fauno bebia, enquanto tudo fazia para esconder o sexo que lhe costumava assomar entre as pernas. Aqui também mais se parecia com um caprino que com um humano.

Torcia então as orelhas pontiagudas, lembrando-se dos velhos tempos em que naquele local havia frondoso bosque, em que abundavam permissivas ninfas. E aí o marzápio caprino assoma mais um pouco, de cabeça altaneira empalitada que deixava confuso o mulherio, que espalhado pelas mesas tapava os olhos com as mãos, sem se esquecer de deixar frestas entre os dedos, por onde delicada e disfarçadamente olhava o meio peludo e muito barbado ser.

Como podia um Fauno, criatura que o homem nunca tinha encontrado no seu caminho, que os quadros retratavam como ficção e as enciclopédias e dicionários davam estranhas genealogias de maravilhoso feitas, estar numa esplanada?

Sim, como podia?

Alguns padres chegaram a espargir o dito com água benta que tiravam da sagrada caldeirinha com o não menos sagrado hissope. O ser então encabulava, não que a água, aquela ou outra, lhe fizesse diferença, mas o comportamento, senhores o comportamento!!?? Como podiam pessoas acisadas, homens bem formados, achar graça a pingarem-no todo com água? Como podiam? Bebia então mais rapidamente a segunda e, em passo rápido, subia às ameias da torre onde a cervejaria se instalara, escalando a parede com as suas pernas trepadoras, enquanto que as mãos, com unhas de respeito, se agarravam às mais pequenas saliências, pega mãos conhecidos de um caminho já muitas vezes percorrido e voltava a anichar-se no seu lugar.

Por uma vez, um cirurgião conhecido pelas suas proezas com o corpo humano tratou de arrazoar para o ente. O bem que lhe podia fazer! Tirar os dois catrapázios pernis, substituindo-os por duas pernas de homem de um qualquer morto. Qualquer não! Que um morto com a compleição apropriada lhe havia de fornecer. E, se a coisa corresse muito mal, sempre se poderia deslocar numa cadeira de rodas.

"E O HERÓI SOU EU?" Conte MANUEL LUIS BÁRBARA

E O HERÓI SOU EU?



Conto Politiqueiro

Por:

Desirmanado


Hellô!

Hellllôôô!!!

Deu-me uma tremedeira. O convés parecia estar cada vez mais escorregadio e a tremedeira era cada vez maior.

HELLLLÔÔÔÔÔ!!!!.

Fui parar de calhostras ao chão.

- Porra! Porra pr’a cama!

Quem é que me manda a mim comprar uma cama com despertador incorporado?

Quem é que me manda a mim que essa f.d.p. da cama ao fim de 5 tempos de despertar me atire para fora dos lençóis? Porra quem me mandou a mim?????

Sentei-me na beira da maldita, ainda assim não fosse a malvada fazer cangocha e pôr-me outra vez de quatro no chão.

- Qué lá isso malvada? Pago-te e pões-te aos pinchos? Mil euros me custaste tu! Mil eurinhos! Pr’a quê? Para me embalares! Para me deixares dormir a sono solto! Para me dares bons sonhos e para me acordares quando eu acabasse de dormir. Se quisesse despertar a horas bastava-me o despertador píu-píu electrónico que me acompanhou já metade da vida e é muito mais maleável do que tu… Pois é verdade, por isso é que eu te trouxe cá para casa. Pois foi, lembro-me agora, espetei com o píu-píu na parede, nem o bico se aproveitou. E a chatice que foi com os gajos da reciclagem, o bom e o bonito quando o robô do lixo lhes comunicou que o píu-píu estava todo desmazelado. UUUUUUU!!!! Queriam que eu pagasse e sujeito a multa e que mais prisão e já vais ver que nem um santo te acode…, pata que os pôs. Mas mamaram a versão oficial, e tal e coiso: “você veja lá, ia a levantar-me cheio de vontade de ir trabalhar, o piu-piu naturalmente também quis ir atrás de mim, saltou para o chão, não tive culpa que se tivesse metido debaixo dos meus pés! Estas máquinas revolucionárias às vezes tem coisas… naturalmente queria ir comigo para o trabalho. Sei lá!”

Um dos gajos, que tinha uma ganforina à Flausino, olhou para mim bispando-me de cima a baixo, com cara de bite fundido rouquejou, mas conteve-se. A cangalhada dos bons costumes, esses fraldisqueiros que metem o nariz em tudo quanto gastamos e o lixo que fazemos, (estou desconfiado que puseram censores na casa de banho para pesar o que resta do quilo), para contabilizarem a pegada ecológica, conceito inventado pelo meu avô aqui há oitenta anos atrás. Olha agora! Toda a gente tem que dar parte de quantas embalagens de tetrapac enviou para a reciclagem, com quantos molhos de espinafres é que se alambazou, se deitou os caroços dos pêssegos fora se os deglutiu, se escorropichou bem as garrafas de água, se partiu as garrafas de vidro todas aos bocadinhos para serem recolhidas e imediatamente postas no forno de vidro…

E daquela vez em que a garrafa se partiu? Meu rico vinho, que na pesagem que fizeram dos cacos quando os fui reciclar, aqui d’el-rei que a pesagem não dá com o número de garrafas que comprou, agora tas tramado, escondeste material de refugo, tens que pagar o que vai custar à humanidade esse caco de vidro. Calma homenzinho, (um gajo com umas fuças porcinas por demais adequadas à função), calma que eu vou a casa, armado de lupa e microscópio se isso for necessário, e já lhe trago essa jóia de vidro que falta no tesouro. O porcino olhou para mim sem ter muito a certeza se eu estava a desfrutar com ele ou falava a sério, ainda estive para lhe dizer que estava a pensar bem.

Inicio do livro "O Fauno O Médico e a Internet" de MANUEL LUIS BARBARA


Democrainternete

Sou Eleitor Profissional.

É uma das mais prestigiadas profissões do século XXI.

Depois da internet se ter firmado como o principal meio de comunicação, permitindo que tudo e todos estivessem à distância do gesto de clicar em qualquer rato ou dispositivo que o substituísse, fosse ele de que feitio fosse, a internet tomou conta em definitivo de política nos idos anos de 2030.

Alguns anos antes, Desde a segunda década deste século, que as votações se faziam a partir dos nossos terminais pessoais.

Os resultados das votações eram fáceis de apurar e os resultados imediatamente aplicados.

Uma coisa levou às outras todas, e, ao sabor desta facilidade, alguns governos duraram até à primeira medida que desagradou à maioria dos votantes.

Os votantes passaram a ter um papel tremendo e um poder extraordinário na coisa pública.

A profissionalização dos votantes foi uma situação incontornável.

A quantidade de documentos produzidos pelos governos, pelos partidos que os sustentam, e pelas mais variadas oposições, lóbis, sindicatos etc. levou a que alguns de nós, votantes comuns, nos tivéssemos dedicado a tempo inteiro a esta tarefa quase sobre-humana de ler todos os textos que vão sendo produzidos. Tornamo-nos Eleitores Profissionais.

Claro que nós não valemos só o nosso voto!

Muitos votantes comuns contam connosco para decidirem qual o seu sentido de voto. Nós trocamos por miúdos, por assim dizer, o que os detentores do poder emitem. Mas, ainda mais do que isso, comparamos o que todos eles dizem, fazemos análises por categorias do que é emitido e, atenção, tentamos lobrigar nas entrelinhas as mentiras possíveis.

Claro que tivemos que nos profissionalizar!

Doutra forma, não podíamos nem orientar os outros com a nossa verdade, nem sustentarmo-nos e às nossas famílias.

Assim tudo se arranjou a contento, o parlamento nacional tem vinte e um deputados e quatro senadores. Os últimos são nomeados pelo presidente do parlamento. Chegou-se a esta solução para que as maiorias fossem mais fáceis de conseguir. Os senadores, ou são antigos deputados ou eleitores profissionais que durante um determinado período ficam ao serviço da assembleia virtual, requisitados pelo presidente da mesma.

Desejar-se-ia que estes senadores fossem independentes e fizessem pender as votações na assembleia para o lado que tivesse mais razão e que melhor Leis apresentasse para o bem comum.

Na assembleia estão representados cinco partidos, nenhum têm a maioria, por isso os senadores são tão importantes e tão adulados.

A assembleia inicia-se quando existe quórum. Mas têm uma particularidade, o primeiro dos deputados que ligar o seu terminal inicia a sessão como seu presidente. Presidente Por Primeiro Chegar (PPPC).

Pelo menos até à primeira votação do dia. Se conseguir a maioria de votos será Presidente até ao fim da sessão, se não… dá o lugar a outro.

É claro, que ser Presidente Por Primeiro Chegar, dá vantagens.

O PPPC controla os acessos e, claro, que vai manobrar no sentido de só permitir que os “outros” (designação genérica porque são referenciados todos os deputados que não são dos “nossos”), acedam aos terminais, só depois do quórum ter sido estabelecido e o Presidente por Primeiro Chegar, ser eleito Presidente Efectivamente Presidente (PEP).

Já não é assim com o Executivo do Território (ET). Quando cai uma Assembleia, mercê dos votos dos eleitores que no momento estão ligados, há logo uma votação para nova Assembleia.

E como o Executivo do Território depende da Assembleia, se o partido que sustenta o ET for derrotado “adeus ó vindima”, o ET vai ao ar e é logo substituído por outro assim que a nova assembleia for votada e tomar assento, que é como quem diz que os deputados eleitos liguem os seus ecrãs. Mas para alguém ganhar, são necessários cinquenta por cento mais um dos votos descarregados.

É nestas circunstâncias que eu, modéstia à parte, e uns poucos mais com o meu estatuto, chamamos as massas a votar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Feliz dia para todas as MULHERES ...





8/03/11 - Feliz dia para todas as MULHERES ...






SER MULHER É...

É viver mil vezes em apenas uma vida,
é lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora,
é estar antes do ontem e depois do amanhã,
é desconhecer a palavra recompensa apesar dos seus atos.

Ser mulher é caminhar na dúvida cheia de certezas,
é correr atrás das nuvens num dia de sol
e alcançar o sol num dia de chuva.

Ser mulher é chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza,
é cancelar sonhos em prol de terceiros,
é acreditar quando ninguém mais acredita,
é esperar quando ninguém mais espera.

Ser mulher é identificar um sorriso triste e uma lágrima falsa,
é ser enganada e sempre dar mais uma chance,
é cair no fundo do poço e emergir sem ajuda.

Ser mulher é estar em mil lugares de uma só vez,
é fazer mil papéis ao mesmo tempo,
é ser forte e fingir que é frágil pra ter um carinho.

Ser mulher é se perder em palavras
e depois perceber que se encontrou nelas,
é distribuir emoções que nem sempre são captadas.

Ser mulher é comprar, emprestar, alugar,
vender sentimentos, mas jamais dever,
é construir castelos na areia, vê-los desmoronados
pelas águas e ainda assim amá-las.

Ser mulher é saber dar o perdão,
é tentar recuperar o irrecuperável,
é entender o que ninguém mais conseguiu desvendar.

Ser mulher é estender a mão a quem ainda não pediu,
é doar o que ainda não foi solicitado.

Ser mulher é não ter vergonha de chorar por amor,
é saber a hora certa do fim,
é esperar sempre por um recomeço.

Ser mulher é ter a arrogância de viver apesar dos dissabores,
das desilusões, das traições e das decepções.

Ser mulher é ser mãe dos seus filhos,
e dos filhos de outros e amá-los igualmente.

Ser mulher é ter confiança no amanhã e aceitação pelo ontem,
é desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos
e fincar a bandeira da conquista.

Ser mulher é entender as fases da lua por ter suas próprias fases.
É ser "nova" quando o coração está à espera do amor,
ser "crescente" quando o coração está se enchendo de amor,
ser "cheia" quando ele já está transbordando de tanto amor
e "minguante" quando esse amor vai embora.

Ser mulher é hospedar dentro de si o sentimento do perdão,
é voltar no tempo todos os dias e viver por poucos instantes
coisas que nunca ficaram esquecidas.

Ser mulher é cicatrizar feridas de outros
e inúmeras vezes deixar as suas próprias feridas sangrando.

quinta-feira, 3 de março de 2011

"O CARTEIRO"

O CARTEIRO



Lá vem o carteiro com seu ar prazenteiro, distribuir o correio. De mala ao ombro, mil segredos ela esconde. Na mão transporta cartas, de amor de penhor, de desamor de alegria de tristeza, igualmente a boa nova de um nascimento, ou uma triste notícia. A paixão de um grande amor ou a decadência de uma relação já sem solução.

Também se juntam na mesma mala os amigos e os inimigos.

Aí se a mala falasse? De certo contaria, talvez fizesse, do carteiro seu confidente. E daí para a frente se estabeleça um diálogo entre carteiro e a sua mala.

-Como estava hoje a D. Maria, a moradora do nº 8 da rua da Alegria? Ela estava bem disposta? Ela sorriu para o envelope, decerto agradou-lhe o remetente! Boas novas boas novas. Estou mais aliviada. Ufa, ainda tenho o espaço muito preenchido, preciso que entregues mais umas cartas. E se fores já entregar a carta àquele senhor velhote, que vive sozinho, para ele ficar mais animado! E não te esqueças pergunta pela saúde dele como vês somos nós os dois os únicos que o visitamos e as horas custam muito a passar, para quem não tem ninguém, e aquela jovem que está sempre à janela esperando por nós, se calhar espera, notícias de amor.

-Mala amiga e minha única companhia, não achas que estás a ser um pouco indiscreta! A nossa missão é apenas a de entregar as cartas na morada certa.

-Pois, pois dizes bem na morada certa, agora não te distraiais ainda trocas a correspondência e depois é que são elas.

-Descansa que eu estou atento, e além disso eu conheço já os moradores da zona

Estou a ficar um pouco cansado já andei tanto.

-Queres um conselho vai levar já o correio à tasquinha da esquina, sempre podes fazer uma pausa e beber um refresco para ficares com mais energia.

-Boa ideia, boa ideia, quando queres és minha amiga. Claro que eu também o sou, não te sentes mais livre.

-Claro que respiro muito melhor. Dá para perceber que vais perto de um jardim cheira tão bem a flores, e até se ouvem os passarinhos. Como é bela a vida ao ar livre, não achas?

-Tu dizes isso porque não te lembras quando está a chover, ou a fazer um grande frio e com muito vento que custo a carregar-te, fico sempre com medo de te deixar cair.

-Obrigada, pelo teu cuidado não tinha pensado nisso. Estava convencida que o teu maior problema era na época do verão seria o calor a dificultar-te a vida.

-Boa amiga estamos a chegar ao fim da entrega, e esta última parece que é para uma grande festa; não me digas que é para um convite de casamento!

-Sabes amiga gosto muito de festas.

-Não me diga que quer casar comigo?

-Não é preciso nós já somos inseparáveis, não podemos viver um sem o outro e somos muito felizes.


Évora 6/3/2007

Rosa Casquinha

"Rosa Planta"


 Rosa Planta



Adormecer e, vaguear os pensamentos em sonhos tão convictos, que mais parecem reais. O estado do sono é como a árvore que está presa ao mesmo lugar pelas suas raízes. Soltam-se as folhas levadas pelo vento, como o pensamento voando para outro lugar. E como se elas soubessem do dia e da hora, floresce todos os anos naquele dia.

Dá os frutos na mesma altura, e, na mesma altura deixa voar as folhas como que a libertar-se. As folhas são levadas pelo vento como mensagens coloridas, por vezes colhidas e guardadas em qualquer página de um livro, como que perpetuando o seu estado de folha seca como se de uma fotografia se tratasse. Ficam as memórias ténues enevoadas, que ao acordar lembram algo parecido ao real mas pouco explicito. É o contacto com a realidade, o sonho e a fantasia. Acordar para o dia-a-dia, com a esperança e optimismo de um futuro melhor.


Évora, 7 de Junho de 2006

Rosa Casquinha


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

PROVERBIANDO…

“Um diálogo de burros”

Suponhamos que um contribuinte, do erário público, entra numa Repartição Pública, que pode ser a sua…, e exclama:

Quem foi o “burro” que me enviou este Aviso para pagar aquilo que já paguei?

Levanta-se um funcionário que diz:

Burro que muito zurra pede cabresto!

E, o diálogo entre os dois continuou assim:

Cte – Oh! É burro velho não recebe ensino!

Funcº - O burro não é tão burro como se pensa!

Cte - A burro velho albarda nova!

Funcº - Aqui, não se albarda o burro à vontade do dono!

Cte - Homem da Beira e besta muar têm sempre coices p’ra dar!

Funcº - O burro não se amansa: se acostuma!

Cte - O burro e a mulher, a pau se quer!

Funcº - Sabe o que diz o asno ao mulo? Tira-me daqui orelhudo!

Cte - Já reparei, usas gravata e como gravata de burro é chocalho!

Funcº - Antes excomunhão de vigário que bênção de pé de burro!

Cte - Quem afaga a mula recebe coices!

Funcº - A mula com afago, o cavalo com castigo!

Cte - Burro velho não toma andadura ou, se a toma pouco dura!

Funcº - Antes burro que me leve, que cavalo que me derrube!

Cte - O burro gosta de ouvir os seus zurros!

Funcº - Filho de burro pode ser lindo mas dá coices!

Cte - De pensar, morreu um burro!

Funcº - Quem burro vai a Roma, burro vai, burro vem!

Cte - Até lá morre o burro e quem o ensina!

Funcº - Burro que geme, carga não teme!

Cte - O burro é mau, indo para casa, corre sem pau!

Funcº - Mais vale burro vivo, que sábio morto!

O “burro” do contribuinte exclamou:

Paga e não “bufes”!...

O “burro” do funcionário replicou:

Isso era antigamente, agora “bufas” mas tens que pagar na mesma!...

QUE GRANDE BURRADA!...

Por MANUEL MAJOR

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Primeiro cigarro

Corria o ano de 1954 e eu tinha 9 anos. Estava estudando no Ensino Primário na Escola do Caldeiro na cidade natal de Estremoz.

Com alguns colegas de escola e outros amigos de rua, sempre bricávamos pelos mais diversos cantos da minha bela cidade. Jogávamos "pateira", brincávamos ao "rei coxinho", pedurávamo-nos na trazeira dos carros de mulas ou nas camionetas, fazíamos alpinismo nas muralhas do Castelo,

caçávamos grilos no campo, tomávamos banho na Ribeira de Têra e nos tanques das Quintas, etc.,etc.,etc.

Havia um rol muito grande de brincadeiras e eu assinalei só algumas. Eram coisas saudáveis, se bem que nem sempre éticas, como aquela de roubar fruta nas Hortas e Quintas. Mesmo assim isso tolerava-se, independentemente de um ou outro tiro de sal nas nádegas que ardia para caramba...

É claro que nesse amontoado de brincadeiras sempre havia alguma mais "cabeluda" como a tentação de espreitar pela fisga de alguma janela alheia e, principalmente, a que é hoje a principal razão da minha crónica --- o primeiro cigarro.

No ano que assinalei acima e guardado na lembrança até hoje, eu estava com um grupo de putos da minha idade lá na chamada Estrada do Espadanal. É uma estrada que saía das Portas dos Currais e fazia ligação com a estrada que ía para a Glória ao se transpôr a EN4. Hoje está tudo urbanizado por ali e a estrada nacional tem outro nome, etc. e tal.

A minha memória de homem de 65 anos está muito boa quando direccionada àqueles tempos, o que não acontece em relação a factos ocorridos recentemente. Lembro-me, portanto, que um dos mais velhos naquele grupo havia conseguido um maço de cigarros da então recente marca "Sporting" e fez questão que cada um de nós experimentasse. Não me lembro da reacção de cada um dos meus amigos, mas lembro-se que tentei engolir (tragar) o fumo e apanhei aquela inescapável bebedeira do tabaco. Senti-me muito mal e isso gravou a cena na memória.

É interessante a comparação daquela cena com as muitas que hoje vemos por aí e que dizem respeito ao começo do vício nas drogas pesadas. O tabaco também é uma droga e também vicía e, por isso, veio a segunda e as sequenciais tentativas de aprender a tragar o fumo. Resumindo, comecei ali a minha vida de fumante, a qual só veio a ter fim no dia 4 de Fevereiro do ano passado.

Assinala-se hoje o primeiro aniversário do meu divórcio com o cigarro. Jamais usei qualquer outro tipo de droga e penso que jamais usaria. Até entendo que o cigarro foi um grande companheiro em certos momentos difíceis da vida, algo difícil de explicar. Parei porque o corpo enviou-me um sinal de alerta e eu percebi.

Sinto-me feliz por ter parado de fumar e mais feliz ainda por saber que nenhum dos meus descendentes tem esse hábito ou vício. E por descendentes eu refiro-me a filhos e netos. Netos!? --- Sim, netos também! Pô! eu tinha 9 anos quando comecei e olho para um dos meus netos (11 anos) e penso que jamais admitiria vê-lo com um cigarro nos queixos.

Aos fumantes que acidentalmente venham a ler esta crónica, sugiro-lhes que parem de fumar, de estalo, como eu parei. Garanto-lhes que a força de vontade é mais forte que o vício.



Postado por ALENTEJANO E TROPICANO - Claudio Portalegre

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

ONTEM E HOJE

Ano de 1959.

Cincoenta e dois anos são passados, mas a lembrança perdura. O meu grande sonho era ser oficial da Marinha de Guerra e, mais tarde, comandante de um qualquer navio mercante ou de passageiros, passaporte para conhecer o Mundo. E nesse ano esse sonho terminou...

Naquele ano eu cursava o 4º do Curso Geral de Comércio e era, como sempre fui, aquele aluno do meio da tabela; aprendia o que ouvia e não perdia horas decorando o que quer que fosse; situava-me, sempre, naquela faixa entre o medíocre + e o suficiente...
Companheiros inseparáveis naquele e nos anos anteriores da Escola, além do Calhau, Raúl Silva, Zé Baião, Constantino Pereira, Correia da Costa, Guilhermino, Chico Garcia, etc., tinha o Gualter Cabral. Este último e eu entrávamos na primeira aula de inglês e a professora, imponente no corpo e na voz disse: “vocês dois estão chumbados! Se quiserem entrar, entrem, mas não adianta”.

Um outro dia tinha Exercício de Contabilidade. Não me lembro o nome da professora; sei que era muito feia, hospedava-se num prédio do Cabido gerido por freiras e tinha um insuportável mau hálito. Eu, que não sabia patavina de Contabilidade, respondi a algumas questões e coloquei na folha a finalizar: “Continúa no próximo folhetim”. Isto dos folhetins estava em moda por causa dos da Emissora Nacional e que eu ouvia alternadamente com os Parodiantes de Lisboa.

O corpo docente reuniu-se extraordinàriamente só para avaliar o meu comportamento e eu lembro-me que fui punido com dois dias de suspensão.

Quando do regresso da punição, coincidiu haver um Exercício de Inglês. Imaginem! Sentei-me na carteira como todos os demais, rapazes e raparigas. Esquecia-me de assinalar que a turma era mista e lembro-me da Edite Garcia, Cristina entre outras. E aí aconteceu que a professora Dona I... chegou do meu lado e disse: “como não sabes merda nenhuma, faz aí uns desenhos iguais aos do Exercício de Contabilidade”. Claro que, como respeitador, cumpri e segui a sugestão... O resultado disto foram 10 dias de suspensão e estava configurada a minha reprovação de ano. Morreram os meus sonhos. No ano seguinte fui trabalhar no meu primeiro emprego em Lisboa
 
e estudar à noite na Escola Dona Maria II, tendo como professor de História o inesquecível Talhante que no ano anterior estava em Évora.

Fui na residência da Dona I..., na Praça do Geraldo naquela época, casa de seus pais para pedir-lhe que reflectisse sobre a questão. O resultado disso foi que, quando eu voltei para as aulas ela disse para toda a classe e na minha presença: “o gajo foi na minha casa ajoelhar-se a meus pés”. Senti, definitivamente, que nada mais era possível.

Naqueles tempos tudo o que relatei se colocava num plano 180 graus oposto em relação à actualidade. Os meus pais nem do ocorrido tiveram conhecimento. Jamais foram chamados à Escola. E imaginem hoje uma professora dizer aos alunos o que me disse a mim. No mínimo apanhava do aluno e era expulsa da Escola...

Na realidade, a Escola era uma verdadeira ditadura. Naqueles Conselhos Docentes os alunos ou responsáveis não participavam e isso, per si, configurava arbitrariedade.

O Director, Guedes do Amaral, que também foi meu professor, era temido por todos nós. No fundo, porém, era boa pessoa. Lembro-me dele alguns anos mais tarde quando frequentemente eu ficava nas estradas pedindo boleia (carona) e várias vezes me abriu a porta do seu carro. Ele tinha um problema nos pés que se agravava ano a ano e lembro-me do seu sofrimento com isso. Foi o único dos docentes que referi aqui nominalmente. Da professora de Contabilidade não me lembro o nome. Da professora de Inglês sei o nome mas não o coloquei aqui por uma questão de ética, pois mesma se suicidou num dos anos da década de 90, possìvelmente por ter a consciência muito pesada.

A vida dá muitas voltas e eu acabei por me formar num curso superior, Administração de Empresas, aqui no Brasil em 1983. Sei que muitos dos meus antigos colegas não seguiram os estudos além do curso secundário e eu fi-lo já com idade avançada. Nas aulas de Ciências Contábeis, neste curso, eu fui sempre o melhor aluno, mesmo não escrevendo o nome das contas e a descrição com o bastardo francês e o cursivo inglês que muito bem aprendi... Quanto a inglês, não gosto. Falo e escrevo fluentemente espanhol e francês, mas fiquei com trauma do inglês... Não fui para a Marinha, mas a viagem que fiz para Timor como militar --- 60 dias de ida e mais 60 de volta de navio --- afagaram o meu ego...


Adios amigos! Au revoir!

 
A minha fotografia CLAÚDIO PORTALEGRE

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